A universidade americana em Boston havia parecido, de longe, um lugar com vida social intensa. Havia clubes, associações, eventos, a promessa implícita de que o ambiente acadêmico seria o contexto onde conexões aconteceriam naturalmente. Havia a memória da faculdade no Brasil, que tinha isso.
O que ninguém havia dito é que a universidade americana tem uma cultura de solidão própria que coexiste com toda essa infraestrutura.
As pessoas existem nos espaços compartilhados. Estudam nas bibliotecas, frequentam as aulas, aparecem nos eventos. Mas há uma privatização da vida emocional nos ambientes acadêmicos americanos, especialmente nas grandes universidades de pesquisa de Boston, que é diferente da sociabilidade mais espontânea que a maioria das brasileiras conhecia em casa. Cada pessoa está focada em sua trajetória individual. As conversas são educadas mas delimitadas. O vínculo que a pessoa esperava que se formasse de forma natural simplesmente não se forma.
O mito da comunidade universitária
A universidade americana projeta uma imagem de comunidade. O campus, os dormitórios, os eventos organizados, os clubes com recrutamento ativo, os programas de integração para estudantes internacionais: tudo isso existe. E existe com a intenção explícita de criar senso de pertencimento.
Mas estrutura de comunidade não é o mesmo que comunidade. Pode-se frequentar todos os eventos de integração e sair de cada um deles sem ter feito uma conexão que dure além do evento. Pode-se estar no mesmo dormitório que vinte pessoas e manter com cada uma delas o nível de contato que é a cortesia mínima de quem compartilha um espaço.
Há razões estruturais para isso. Universidades de pesquisa têm culturas onde o desempenho acadêmico é central e onde o tempo disponível é escasso. Estudantes em programas intensivos estão frequentemente sob pressão que limita a energia disponível para investimento social. E há o fator cultural americano mais amplo, que na Nova Inglaterra se manifesta de forma particularmente intensa: a tendência a manter limites claros entre vida pessoal e vida profissional e acadêmica que torna a amizade na universidade possível mas não automática.
O isolamento específico do estudante internacional
Para estudantes internacionais, os mecanismos que já dificultam a conexão no ambiente universitário americano têm camadas adicionais. Há o idioma, que mesmo fluente pode criar fricção em contextos de humor, de referência cultural rápida, de conversas que exigem velocidade de processamento que a segunda língua não sempre oferece. Há a ausência de referências culturais compartilhadas: as músicas, os filmes, os eventos políticos que formam o substrato das conversas casuais. Há a sensação de estar um passo atrasado na compreensão de piadas e referências que todos os outros capturam automaticamente.
Há também a questão do tempo. Estudantes internacionais em programas de pós-graduação frequentemente têm prazos de permanência limitados pelo visto, o que cria uma ambiguidade sobre o nível de investimento em vínculos locais: “Estou aqui por dois anos. Vale a pena construir amizades que vou ter que deixar para trás?” Essa ambiguidade, quando não é examinada, pode funcionar como argumento implícito para não investir, o que resulta em dois anos de isolamento que não foram planejados mas que aconteceram pela ausência de decisão contrária.
O que a solidão acadêmica produz além da solidão
A solidão no ambiente universitário tem consequências que vão além do mal-estar emocional imediato. Ela impacta o desempenho acadêmico de formas que são documentadas mas raramente antecipadas.
Concentração, memória de trabalho e capacidade de resolução de problemas complexos são funções cognitivas que dependem, em parte, do estado do sistema nervoso. Um sistema nervoso em isolamento crônico opera com recursos reduzidos em exatamente as funções que o ambiente acadêmico mais exige. A pessoa que está se sentindo sozinha em Boston pode notar que as tarefas acadêmicas estão levando mais tempo do que deveriam, que a concentração está fragmentada, que o que deveria ser prazeroso no processo de aprendizagem perdeu parte do prazer.
Isso cria um ciclo difícil: a solidão compromete a performance acadêmica, a performance acadêmica comprometida produz ansiedade, a ansiedade consome mais energia, e a energia que poderia ir para construção de vínculos vai para o esforço de manter o nível acadêmico.
A pressão específica do ambiente de excelência
As universidades de Boston, como MIT, Harvard, Boston University, Northeastern, BU, têm em comum uma cultura de alta performance que é parte constitutiva do ambiente. Estar ali significa estar num contexto onde todo mundo ao redor parece competente, seguro, progredindo. A comparação constante com pessoas que parecem funcionar bem num ambiente onde você está lutando para se manter é uma fonte de pressão que não é exclusiva do contexto internacional mas que o amplifica.
A síndrome do impostor tem prevalência alta em ambientes de alta performance. Para estudantes internacionais, ela tem uma dimensão adicional: a percepção de que se está lá não só por mérito mas por uma concessão especial que pode ser revogada, que o nível de inglês não é suficiente, que as referências culturais estão faltando, que há algo na capacitação que vai ficar visível em algum momento.
Essa percepção raramente é acurada. Mas a racionalidade da percepção não determina o impacto que ela tem no estado emocional.
O que ajuda no contexto universitário de Boston
Uma parte do trabalho clínico com esse quadro é estratégica: identificar os contextos dentro da universidade que têm potencial de aprofundamento de vínculos e criar estrutura deliberada para frequentá-los com continuidade. Não os grandes eventos de integração, que têm muitas pessoas em interação superficial, mas os grupos menores com interesse compartilhado, os seminários que se repetem, os contextos onde as mesmas pessoas aparecem semana a semana. Vínculo se constrói por repetição, e repetição requer estrutura.
Outra parte é examinar a ambiguidade sobre o investimento em vínculos locais. “Estou aqui por dois anos” pode ser uma razão para não investir, mas também pode ser uma razão para investir com mais intenção, porque dois anos bem habitados são diferentes de dois anos em espera.
A terapia em português oferece um espaço que o ambiente universitário de Boston frequentemente não tem: onde o que está sendo vivido pode ser dito no idioma em que existe, sem a mediação do inglês acadêmico que consome energia suficiente na faculdade.
Se o que foi descrito aqui ressoa com o que você está vivendo em Boston, uma avaliação clínica pode ser um próximo passo.