BRASILEIROS NO EXTERIOR

Boston é uma cidade pequena para ser tão difícil de fazer amigos

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Paula Karam · CRP 06/38806
6 min de leitura

Boston tem 700 mil pessoas. Não é uma cidade pequena em termos populacionais. Mas tem uma escala humana, uma forma de se organizar no espaço, uma velocidade de vida que é diferente de Nova York ou de Chicago. E tem uma reputação específica que os próprios bostonenses reconhecem com uma mistura de orgulho e ironia: o “Boston Freeze”.

O Boston Freeze é o nome informal para um fenômeno que visitantes e recém-chegados descrevem de forma consistente: a dificuldade de entrar em círculos sociais já estabelecidos numa cidade onde as pessoas são cordiais mas fechadas, onde as amizades tendem a vir de conexões antigas e onde a abertura para novos vínculos é mais lenta do que em muitas outras cidades americanas.

Para brasileiras que chegam de uma cultura onde a sociabilidade é mais rápida, mais permeável, onde o colega de trabalho vira amigo depois de um almoço e o vizinho é cumprimentado pelo nome desde a primeira semana, Boston pode parecer inexplicavelmente fechada.

O que é o Boston Freeze e de onde vem

O fenômeno do Boston Freeze não é uma percepção brasileira específica. É amplamente documentado em fontes americanas como algo que diferencia Boston de outras cidades do país. Pessoas que se mudaram de Nova York, de Los Angeles, do sul dos Estados Unidos para Boston frequentemente relatam o mesmo: a dificuldade de fazer amigos além de um nível superficial de cordialidade.

As origens culturais do fenômeno são debatidas. Há quem o atribua ao caráter histórico da Nova Inglaterra, com raízes puritanas e valores de privacidade que se sedimentaram ao longo de séculos. Há quem o atribua ao fato de que Boston é uma cidade de estudantes com alta rotatividade, o que desincentiva investimento em vínculos novos por parte de quem já tem uma rede estabelecida. Há quem o atribua simplesmente ao clima, que por seis meses do ano não convida a estar fora e reduce o contato espontâneo que seria o substrato de amizades nascentes.

A origem importa menos do que o efeito: é objetivamente mais difícil construir vínculos profundos em Boston do que em muitas outras cidades americanas, e esse dado não é evidência de inadequação pessoal de quem está tentando.

O que a brasileira lê como rejeição

A diferença entre culturas de sociabilidade cria uma armadilha interpretativa específica. Na cultura brasileira, a abertura social é relativamente rápida e a progressão de conhecida para amiga tende a acontecer em semanas ou meses. Quando uma colega de Boston é cordial mas nunca sugere encontrar-se fora do trabalho, quando um vizinho cumprimenta mas não conversa, quando as tentativas de aprofundar uma relação não encontram eco, a leitura disponível é a de que há algo errado com a pessoa que está tentando.

“Ela não me aceita.” “Não estou me encaixando.” “Há algo em mim que não funciona aqui.” Essas conclusões chegam antes que haja consideração de que o ritmo de formação de vínculos na cultura local pode ser diferente, não ausente.

A diferença entre rejeição e ritmo diferente é enorme em termos de impacto emocional. Rejeição é um julgamento sobre a pessoa. Ritmo diferente é uma diferença cultural que não diz nada sobre a adequação da pessoa. Mas quando a única referência disponível é a cultura de origem, o ritmo diferente é lido como rejeição de forma quase automática.

O tempo que Boston exige

A documentação sobre o Boston Freeze, inclusive de fontes locais, sugere consistentemente que o fenômeno não é permanente. Pessoas que ficam em Boston por anos frequentemente descrevem que a cidade “abre” depois de um período mais longo do que seria esperado. As amizades se formam, mas levam mais tempo e exigem mais consistência de contato do que em muitos outros contextos.

O problema para brasileiras que chegam com expectativa de uma sociabilidade mais rápida é que o período de espera pode ser suficientemente longo para que o isolamento instale padrões antes de a rede se formar. A pessoa que esperava ter amigos em seis meses e não tem pode, aos doze meses, estar operando num estado de retraimento que vai dificultar a formação dos vínculos que ainda são possíveis.

Há também a questão do esforço. Em Boston, a formação de vínculos requer iniciativa mais explícita do que em culturas onde ela acontece de forma mais espontânea. Não é suficiente estar disponível e esperar. É necessário propor, insistir com gentileza, criar estrutura deliberada de contato repetido com as mesmas pessoas ao longo do tempo. Isso é culturalmente contra-intuitivo para quem vem de um contexto onde os vínculos se formam sem que essa estrutura precise ser construída conscientemente.

O que não é o Boston Freeze

É importante distinguir o Boston Freeze, que é um fenômeno cultural real, de outros fatores que podem estar contribuindo para o isolamento. O inverno, que já foi descrito em outro artigo, amplifica o isolamento de forma independente. A ausência de espaços de contato repetido com as mesmas pessoas, que é um componente logístico da construção de vínculo, pode ser um fator separado. E há dimensões do isolamento que são internas: evitação de contextos sociais por ansiedade, dificuldade de se mostrar vulnerável, expectativas sobre como as coisas deveriam funcionar que criam frustração quando não funcionam assim.

O trabalho clínico precisa distinguir entre esses fatores porque as intervenções são diferentes. Se o problema é o ritmo cultural de Boston, a resposta é estratégica: criar contato repetido e consistente, ajustar expectativas de tempo, identificar contextos que tendem a produzir vínculos mais rápidos. Se há um componente de evitação social, esse precisa ser trabalhado diretamente. Se há expectativas que estão criando sofrimento desnecessário, examinar essas expectativas é parte do processo.

O que é possível em Boston

Boston tem comunidades com amizades profundas. Tem pessoas que foram e voltaram e dizem que é a melhor cidade dos Estados Unidos para criar raízes. Tem o potencial de oferecer o tipo de vínculo que qualquer pessoa precisa para um estado de bem-estar sustentado.

O que ela não oferece é a versão fácil desse processo. Mas o que é difícil de construir pode ser mais sólido quando está construído.

Se o que foi descrito aqui ressoa com o que você está vivendo, uma avaliação clínica pode ser um próximo passo. Não para tornar Boston diferente, mas para examinar o que está acontecendo na relação com Boston e o que pode ser diferente na forma de habitá-la.

Próximo passo

Avaliação clínica sem compromisso.
Online, em português.

A primeira sessão é de avaliação — não de terapia. Ao final você tem uma formulação do seu quadro e um plano proposto. Você decide se continua.