BRASILEIROS NO EXTERIOR

A Califórnia das fotos era a minha vida — o resto eu não estava contando para ninguém

PK
Paula Karam · CRP 06/38806
5 min de leitura

As fotos eram reais. O café com vista para o oceano existia. A trilha com aquela luz de fim de tarde existia. O restaurante existia. A amiga que aparecia nas fotos existia e elas eram amigas de verdade, dentro dos limites do que aquela relação havia se desenvolvido.

O que as fotos não mostravam era o quê existia nos dias que não tinham foto. Os dias de domingo em que ela dirigia sem destino porque ficar no apartamento era insuportável mas não havia lugar específico para ir. As conversas no carro com a mãe no Brasil em que ela dizia que estava bem porque contar o que estava acontecendo de verdade parecia traição de tudo que havia construído para poder estar lá. A sensação crescente de que havia duas vidas: a que era documentada e a que era vivida, e que a primeira estava cada vez mais distante da segunda.

Em Los Angeles, essa distância tem condições excepcionais para crescer.

Por que Los Angeles produz vidas paralelas

Los Angeles é a cidade da imagem por razões que não são acidentais. A indústria do entretenimento criou uma cultura de construção e curadoria de narrativa visual que permeia muito além de Hollywood. Em LA, a questão de como algo aparece tem peso específico que não tem em outras cidades americanas.

As redes sociais amplificam isso de forma global, mas Los Angeles é o ambiente onde a pressão de aparecer de determinada forma é mais densa, onde há mais pessoas cujas vidas são parcialmente organizadas em torno da produção de conteúdo de si mesmas, onde a distância entre a vida documentada e a vida vivida pode ser maior porque há mais infraestrutura e mais cultura de suporte para a documentação.

Para brasileiras que chegam a Los Angeles com a narrativa de que foram para um lugar extraordinário, há uma pressão adicional de confirmar essa narrativa. O feed do Instagram não só registra a vida que está sendo vivida. Também confirma, retroativamente, que a decisão de ir foi certa. Cada foto da trilha com luz perfeita diz, implicitamente, “valeu a pena”. E o domingo em que não havia nada não serve a essa função.

O que o gap entre as duas vidas produz

Manter duas vidas paralelas tem um custo psicológico que é diferente do custo de qualquer uma delas separadamente. Não é só o custo do que está sendo vivido, que tem seus próprios desafios. É o custo adicional de administrar a distância entre o que está sendo vivido e o que está sendo mostrado.

Essa administração exige monitoramento constante: o que pode ser dito, o que não pode, o que contradiz a narrativa que está sendo sustentada, o que a complica de formas que são aceitáveis e o que a contradiz de formas que não são. Esse monitoramento acontece em segundo plano, mas acontece, e consome recursos cognitivos e emocionais que ficam indisponíveis para outras coisas.

Há também um efeito sobre a autoimagem. A pessoa que vive a distância entre quem é para o feed e quem é no domingo sem foto tende a interpretar essa distância como evidência de que há algo errado com ela, não com a dinâmica que a produziu. “Por que não consigo ser a pessoa das fotos o tempo inteiro?” é uma pergunta que não tem resposta porque parte de uma premissa errada. A pessoa das fotos é uma seleção de momentos reais. Não existe uma vida que seja composta só de momentos fotografáveis.

O que acontece quando não há mais ninguém para quem a performance é necessária

Há momentos, para quem mantém essa distância por tempo suficiente, em que a performance se torna automática até em contextos onde não seria necessária. A pessoa que habituou a versão curada de si mesma para as redes pode descobrir que está performando essa versão também para si mesma, que o monitoramento que havia começado como social tornou-se interno.

“Não sei mais o que sinto de verdade porque há tanto tempo estou monitorando o que mostro que perdi o fio do que é.” Essa frase, ou uma versão dela, chega à clínica com frequência em contextos de curadoria de vida prolongada.

O que está sendo descrito não é patologia. É uma resposta ao ambiente que faz sentido dentro da lógica do ambiente. Mas tem custo. E o custo, quando é reconhecido, frequentemente tem urgência que não estava visível enquanto a performance estava funcionando.

O que pode ser diferente

Uma parte do trabalho clínico com esse padrão é criar um espaço onde a versão não curada pode existir. Não para eliminar a cuidada, não para destruir o Instagram, não para confessar publicamente o que estava sendo escondido. Mas para que haja pelo menos um lugar onde o domingo sem foto pode ser dito como é, sem ser transformado em algo mais apresentável antes de sair da boca.

A terapia em português é, por estrutura, esse espaço. Não há narrativa de sucesso a ser mantida, não há imagem a ser confirmada, não há alguém que vai postar o que foi dito. É uma conversa que pode começar do real e terminar no real.

Se o que foi descrito aqui ressoa com o que você está vivendo em Los Angeles, uma avaliação clínica pode ser um próximo passo.

Próximo passo

Avaliação clínica sem compromisso.
Online, em português.

A primeira sessão é de avaliação — não de terapia. Ao final você tem uma formulação do seu quadro e um plano proposto. Você decide se continua.