BRASILEIROS NO EXTERIOR

Vim para o Texas com meu marido — ele foi embora, e aí começou o mais difícil

PK
Paula Karam · CRP 06/38806
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Ela havia vindo para o Texas com o marido. Era o projeto dos dois: o emprego dele havia surgido primeiro, ela havia pedido transferência para a filial americana da empresa onde trabalhava, e tinham chegado a Houston juntos com a sensação de que começar algo novo em dois era mais seguro do que começar sozinha.

Quando ele foi embora, dezoito meses depois de terem chegado, ela ficou com o apartamento, com o carro, com os móveis que tinham comprado juntos, com os dois empregos — o dela, que havia ficado, e a ausência do dele, que havia levado também o que sobrava de razão para estar onde estava.

Ficar no Texas havia sido uma decisão prática. O visto estava vinculado ao emprego dela, não ao dele. O emprego era bom. Sair e recomeçar no Brasil com uma separação recente e sem dinheiro acumulado parecia impossível. Então ela ficou.

E aí começou o que ela descreveu, meses depois, como o período mais difícil da sua vida.

A separação no exterior tem camadas que a separação no país de origem não tem

Separação é difícil em qualquer contexto. Mas separação no exterior tem dimensões adicionais que multiplicam a dificuldade de formas que não são sempre antecipadas por quem está passando por ela.

A primeira é a ausência da rede de suporte primária. A família que estaria disponível, os amigos de longa data que poderiam aparecer, as pessoas que conhecem a história desde antes: estão a dez horas de fuso horário. O que está disponível localmente é a rede que foi construída em dezoito meses de Texas, que pode ser boa mas que raramente tem a profundidade que as relações antigas têm.

A segunda é a imbricação entre o relacionamento e o projeto de vida. Quando se migra com um parceiro, o projeto de estar naquele país com frequência está entrelaçado com o projeto de estar com aquela pessoa. A separação desfaz não só o relacionamento. Desfaz a narrativa que justificava a presença no lugar. “Vim para o Texas para construir uma vida aqui com ele” não é mais a história disponível. E a história nova não está pronta.

A terceira é a logística que não para. Há documentação para resolver. Há contratos para renegociar. Há a questão do que fazer com o que foi construído junto num contexto onde tudo é mais complicado do que seria no Brasil. Essa logística precisa ser gerenciada no meio do luto, sem pausa, sem a possibilidade de delegar para a família que estaria disponível em casa.

Ficar presa num país estrangeiro após separação

Há uma dimensão específica da separação no exterior que não existe da mesma forma no país de origem: a sensação de estar presa num lugar de forma mais absoluta do que estaria se a separação tivesse acontecido em casa.

Em casa, a separação pode ser seguida de reconstrução no ambiente que se conhece, com a rede que se tem, com a possibilidade de apoio imediato de pessoas próximas. No exterior, a separação acontece num lugar que a pessoa estava habitando em parte por causa da relação, e a pergunta sobre ficar ou ir fica carregada de implicações que não têm resposta fácil: voltar ao Brasil parece derrota ou recomeço? Ficar no Texas sem ele faz sentido? O que é ficar que não seja estar presa?

Essas perguntas raramente têm resposta imediata. E enquanto não têm, a pessoa permanece num estado de suspensão que é emocionalmente muito custoso: sem decidir sobre ficar ou ir, sem poder começar a reconstruir de nenhum lugar enquanto o lugar não está decidido.

O luto que não tem espaço no cotidiano do Texas

A separação implica luto. Não só da relação, mas do projeto de vida compartilhado, da versão do futuro que estava planejada em dois, da identidade de parceira que estava entrelaçada com a identidade de imigrante.

Esse luto precisa de espaço para ser processado. No Texas, depois da separação, o espaço disponível frequentemente não é suficiente. O trabalho continua. A vida cotidiana continua. A logística de existir num país estrangeiro continua. E o luto vai sendo comprimido por tudo que continua, sem momento de processamento adequado, acumulando embaixo de um funcionamento que continua acontecendo mas que tem um custo cada vez mais alto.

Na clínica, o que observo é que esse acúmulo eventualmente encontra saída — às vezes numa crise que não foi planejada, às vezes num colapso de funcionamento que chega antes que houvesse qualquer sinal visível de que estava chegando. A alternativa ao colapso não planejado é o processamento deliberado, que exige espaço e suporte que o cotidiano raramente oferece sozinho.

O que reconstruir quando o lugar também precisa ser decidido

Uma das dificuldades específicas de reconstrução após separação no exterior é que frequentemente é necessário tomar decisões sobre o lugar antes de ter clareza suficiente sobre o que se quer. O visto tem prazo. O contrato de aluguel tem prazo. A empresa pode ou não estar disposta a manter a transferência. Essas pressões logísticas não esperam pelo processo de luto.

O trabalho clínico com esse momento tem uma dimensão de apoio ao luto, que é criar espaço para o que está sendo perdido e para o que está sendo vivido. E tem uma dimensão prática, que é examinar as decisões que precisam ser tomadas com o maior grau de clareza possível dado o estado emocional disponível — que é limitado mas não é zero.

A terapia em português tem relevância específica aqui. A separação é vivida em português, o luto é sentido em português, a pergunta sobre o que vem a seguir é feita em português. Trabalhar esse processo num idioma que não é o materno adiciona uma camada de distância que o processo não precisa ter.

Se o que foi descrito aqui ressoa com o que você está vivendo ou viveu, uma avaliação clínica pode ser um próximo passo. Não para resolver o que não tem resolução rápida, mas para ter suporte no processo de atravessar o que precisa ser atravessado.

Próximo passo

Avaliação clínica sem compromisso.
Online, em português.

A primeira sessão é de avaliação — não de terapia. Ao final você tem uma formulação do seu quadro e um plano proposto. Você decide se continua.