Havia uma versão dela no Instagram que morava em Nova York. Essa versão visitava museus que ela passava na frente mas nunca entrava. Frequentava restaurantes que ela havia ido uma vez mas que fotografou de um ângulo que sugeria regularidade. Tinha uma vida social que era composta de três eventos em dois anos e que nas fotos parecia abundante.
A versão real morava no mesmo apartamento que a versão do Instagram. Ia ao trabalho pelas mesmas ruas. Voltava, às vezes às oito, às vezes às dez, e ficava no sofá com o celular até a hora de dormir.
As duas versões coexistiam sem contradição aparente porque ninguém no Brasil via o sofá. Só viam o que era postado. E o que era postado era suficientemente real para que a versão do sofá não precisasse ser contada.
Por que a performance é tão cara em Nova York
Nova York tem uma cultura de sucesso que é visível na superfície de suas interações sociais. A pergunta “what do you do?” como abertura de conversa em eventos é uma entrada imediata na camada de posição e realizações. A narrativa que se apresenta em contextos profissionais e sociais tem peso de marca pessoal, de posicionamento, de como se quer ser percebido.
Para brasileiras que chegam com a história de terem construído uma trajetória para chegar à cidade, há uma pressão adicional de corresponder a essa trajetória. A pessoa que trabalhou cinco anos para chegar a Nova York está, implicitamente, dizendo que Nova York era o objetivo. Admitir dificuldade em Nova York parece contradiction do ponto de partida.
O resultado é uma performance que não é mentira exatamente, mas que é uma curadoria do que é visível. A seleção de momentos que correspondem à narrativa que se quer sustentar. Os museus que ela passa na frente mas nunca entra aparecem nas fotos porque ela passou na frente. O restaurant que foi uma vez entra na narrativa de “frequenta”. A vida que existe no espaço entre os posts não entra em lugar nenhum porque não há formato disponível para ela.
O custo de sustentar a versão
Performar bem-estar quando não se está bem tem um custo que raramente é contabilizado mas que é real. Manter a consistência de uma narrativa que não corresponde ao estado interno exige energia. Monitorar o que é dito para que não contradiga o que foi dito antes exige atenção. Administrar a distância entre o que se apresenta e o que se vive exige um tipo de dissociação que, mantida ao longo do tempo, pode produzir uma sensação de irrealidade sobre a própria experiência.
“Não sei mais se o que sinto é o que sinto ou o que acho que deveria sentir.” Essa frase aparece na clínica com frequência em contextos de performance sustentada. A pessoa perdeu o fio que conecta o que está sendo vivido ao que está sendo apresentado, e a perda desse fio tem consequências para a capacidade de se orientar.
Há também o custo relacional. A performance de estar bem impede que as pessoas ao redor ofereçam suporte, porque não percebem que há algo para oferecer suporte. A pessoa que finge que está bem cria, com essa ficção, o isolamento que está tentando esconder. Está sozinha precisamente porque ninguém ao redor sabe que ela precisa de companhia real.
O que mantém a ficção em funcionamento
A ficção do bem-estar em Nova York é sustentada por um conjunto de crenças que raramente são examinadas explicitamente. A crença de que admitir dificuldade vai mudar como as pessoas a veem. A crença de que o que está sendo vivido é temporário e portanto não precisa ser dito. A crença de que as outras pessoas não estão passando pelo mesmo e que portanto ela é uma exceção numa cidade de pessoas que funcionam bem. A crença de que quem foi para Nova York não tem direito de não estar bem.
Todas essas crenças são examinadas em terapia e quase nenhuma delas se sustenta quando examinada. A admissão de dificuldade raramente muda a percepção que as outras pessoas têm de forma tão drástica quanto se teme. O temporário que não tem prazo definido não é temporário. As outras pessoas estão passando por versões do mesmo com mais frequência do que o Instagram de qualquer uma delas sugere. E quem foi para Nova York tem tanto direito de não estar bem quanto qualquer outro ser humano numa situação objetivamente difícil.
O que acontece quando a versão do Instagram e a versão do sofá se encontram
Há um momento, para muitas pessoas que mantiveram a performance por tempo suficiente, em que as duas versões não conseguem mais não se encontrar. Pode ser uma crise que não tem como ser mantida fora do campo do visível. Pode ser o esgotamento do esforço de sustentar a ficção. Pode ser o reconhecimento, lento e gradual, de que dois anos se passaram e que a versão do sofá é a vida que está sendo vivida, não uma fase temporária que vai passar.
Esse encontro pode ser o começo de algo diferente. Não necessariamente mais fácil no curto prazo, mas mais real. Uma vida que não precisa de curadoria para existir. Uma relação com as pessoas ao redor que não precisa ser gerenciada a partir da distância da performance.
Na clínica, o trabalho com esse padrão tem uma fase de nomeação, que é simplesmente dizer o que está acontecendo sem o filtro do que deveria estar acontecendo, e uma fase de examinação, que é entender o que sustentou a performance e o que pode ser diferente quando a performance não é mais necessária.
A terapia em português é, em si mesma, um espaço onde a versão do sofá pode aparecer. Sem o filtro, sem a curadoria, sem precisar corresponder à narrativa de quem está bem em Nova York. Se o que foi descrito aqui ressoa com o que você está vivendo, uma avaliação clínica pode ser um próximo passo.