BRASILEIROS NO EXTERIOR

Ganho em dólar em Boston e ainda não consigo me sentir segura

PK
Paula Karam · CRP 06/38806
6 min de leitura

O salário dela em Boston era mais do que qualquer coisa que havia ganho no Brasil. Convertendo para real, o número era surreal. Ela mandava dinheiro para a família, havia quitado uma dívida que arrastava desde a graduação, tinha uma reserva que nunca havia tido.

E ainda assim, no fim de cada mês, havia uma ansiedade de fundo que o número na conta não conseguia dissipar. Não era medo de perder o emprego, exatamente. Era algo mais difuso, mais constante, que existia debaixo de tudo como um ruído que não parava.

Quando tentava nomear o que estava sentindo, a palavra que chegava era insegurança. Mas insegurança de quê? Ela tinha o emprego, tinha o salário, tinha a estabilidade. A insegurança não tinha um objeto claro, e a ausência de objeto claro era, em si mesma, desconcertante.

A diferença entre segurança material e segurança emocional

Segurança é uma experiência que tem dimensões diferentes que não se substituem entre si. Segurança material é a garantia de que as necessidades básicas estão cobertas: moradia, alimentação, saúde, renda suficiente. Segurança emocional é a sensação interna de que se está bem, de que há suporte disponível quando é necessário, de que o mundo não vai desmoronar de forma imprevisível.

As duas formas de segurança se relacionam mas não são a mesma coisa. É possível ter segurança material sem segurança emocional, que é exatamente o que acontece quando o salário está lá mas o ruído de fundo não para. E é o que acontece com frequência para brasileiras em Boston que construíram estabilidade financeira sem ainda terem construído a base emocional que a completa.

A segurança emocional tem componentes que o salário não compra: vínculos de confiança com pessoas que estariam disponíveis numa crise, sensação de pertencer ao lugar onde se está, clareza sobre o que se quer e onde se está indo, capacidade de confiar no próprio julgamento. Esses componentes precisam ser construídos e frequentemente ficam para depois da estabilidade material — que é quando surgem, porque a urgência que antes ocupava todo o espaço não está mais lá para tapar o vácuo.

O custo emocional do sucesso em contexto de migração

Há algo específico sobre o sucesso financeiro no contexto de migração que pode ser emocionalmente custoso de formas que não são óbvias. Uma parte tem a ver com a responsabilidade que o sucesso cria. Quando a pessoa está ganhando em dólar e mandando para o Brasil, ela frequentemente se torna, de forma explícita ou implícita, a esperança financeira da família. Essa posição tem um peso que o valor da transferência não expressa completamente.

Há a pressão de manter o padrão. Há o medo de que o emprego acabe e com ele a capacidade de sustentar não apenas a si mesma mas às pessoas que dependem do que ela manda. Há a dificuldade de pedir ajuda ou de admitir dificuldades porque a narrativa de quem está bem lá fora não comporta vulnerabilidade — para a família, para os amigos no Brasil, às vezes até para si mesma.

E há uma solidão específica do sucesso: a sensação de que ninguém ao redor, nem no Brasil nem em Boston, está exatamente na mesma posição. No Brasil, as pessoas admiram o que ela construiu mas não entendem o que custou. Em Boston, as conversas sobre dinheiro têm outro registro cultural, outra franqueza, outra forma de se relacionar com a própria trajetória financeira que não é a dela.

O que a síndrome do impostor faz com o dinheiro

A síndrome do impostor, que é a sensação de que o sucesso não é merecido e que vai ser descoberto a qualquer momento, tem uma manifestação específica em contextos financeiros. A pessoa que não se sente legitimamente merecedora do que está ganhando pode ter uma relação ansiosa com o dinheiro mesmo quando ele está presente: gastar parece irresponsável porque pode acabar, não gastar parece privação porque o dinheiro existe para algo.

Em contextos de migração, essa ansiedade frequentemente se combina com a memória do que a instabilidade pode significar. Quem passou por períodos de incerteza financeira antes ou durante o processo de migração tem um sistema nervoso que aprendeu a antecipar a perda mesmo quando as circunstâncias mudaram. Esse aprendizado não se desfaz automaticamente com o aumento da conta bancária. Permanece como estado de alerta que o salário não consegue desligar.

O que é suficiente

Há uma pergunta que aparece na clínica com frequência para pessoas que atingiram estabilidade financeira em Boston e ainda não estão bem: “Quanto é suficiente para eu me sentir segura?” A pergunta parece financeira mas não é. É psicológica.

A resposta financeira, por mais que o número aumente, não satisfaz a pergunta subjacente, porque a pergunta subjacente não é sobre dinheiro. É sobre o que faria a pessoa se sentir, de fato, segura. E a resposta para essa pergunta raramente é um número. É um conjunto de coisas que incluem vínculos, clareza sobre o que se quer, confiança na própria capacidade de enfrentar o que for necessário, e uma relação com a incerteza que não seja de terror constante.

Esse trabalho não acontece acumulando mais dinheiro. Acontece examinando o que está sustentando a insegurança que o dinheiro não alcança.

Sobre buscar suporte quando tudo parece bem

Uma das dificuldades de buscar apoio psicológico quando se tem estabilidade financeira é a sensação de que não há razão suficientemente grave. “Tenho emprego, tenho dinheiro, estou bem. O que vou dizer a uma psicóloga?” Essa frase adia o início do trabalho que poderia fazer diferença.

A terapia não exige uma crise declarada para ser útil. O ruído de fundo que não para, a insegurança que não tem objeto claro, a sensação de que algo falta sem que a falta seja nomeável: esses são conteúdos legítimos para o espaço terapêutico.

A terapia em português permite que esse conteúdo seja dito no idioma em que existe, sem o filtro de tradução que às vezes simplifica o que é complexo. Se o que foi descrito aqui ressoa com o que você está vivendo em Boston, uma avaliação clínica pode ser um próximo passo.

Próximo passo

Avaliação clínica sem compromisso.
Online, em português.

A primeira sessão é de avaliação — não de terapia. Ao final você tem uma formulação do seu quadro e um plano proposto. Você decide se continua.