BRASILEIROS NO EXTERIOR

No Texas todo mundo vai de carro — e eu nunca me senti assim tão presa

PK
Paula Karam · CRP 06/38806
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Em Houston, ela havia aprendido a calcular distâncias em minutos de carro, não em quilômetros. O supermercado ficava a oito minutos. O trabalho, a vinte e dois. A academia que havia escolhido porque era a mais próxima, a doze. Os amigos que havia feito — se “feito” era a palavra certa para o nível de relação que havia desenvolvido — ficavam entre vinte e quarenta minutos dependendo do tráfego.

No Brasil, ela havia morado a quinze minutos a pé do trabalho. Havia ido e voltado a pé durante dois anos. No caminho, havia uma padaria, havia uma praça, havia a livraria que ela entrava às vezes sem comprar nada. Havia a vida que acontecia no trajeto.

No Texas, o trajeto acontecia dentro do carro. Sem padaria, sem praça, sem livraria. Só asfalto e ar condicionado e rádio.

O que significa morar numa cidade car-dependent

Houston é frequentemente mencionada como um dos exemplos mais extremos de cidade construída para o carro. Não tem sistema de metrô comparável ao de Nova York, Boston ou Chicago. O transporte público existe mas cobre uma fração limitada dos deslocamentos que a população faz. Sem carro, o acesso à maioria dos pontos da cidade é impraticável ou muito lento para ser sustentável.

Dallas, San Antonio, Austin têm variações do mesmo modelo. O Texas em geral, com exceção de partes de Austin que têm um nível de walkability acima da média estadual, é uma paisagem urbana projetada para o deslocamento individual em veículo próprio. Calçadas são opcionais em muitas partes. As distâncias entre pontos funcionais são longas. A densidade urbana que favorece o encontro espontâneo não existe da mesma forma que em cidades mais compactas.

Para brasileiras que chegam de cidades onde a vida acontece em parte no espaço público, onde há contato humano não planejado integrado nos deslocamentos cotidianos, o Texas pode produzir uma sensação de clausura que não tem nome imediato.

O que a vida no carro faz com o sistema nervoso

Há pesquisa crescente sobre os efeitos do isolamento em veículos particulares na saúde mental. Um estudo publicado no Journal of Transport and Health documentou que commutes mais longos de carro estão associados a maiores índices de estresse e menores índices de bem-estar, mesmo controlando para renda e outros fatores. Parte do mecanismo é o tipo de atenção que a condução exige, que é diferente do tipo de atenção disponível a pedestres ou usuários de transporte público: no carro, a atenção está focada no trânsito e não disponível para o ambiente social.

Há também o elemento de privacidade física. No carro, não há outros humanos. Não há a presença de estranhos que, nas cidades a pé, funciona como fundo social mesmo quando não há interação. A pessoa está fisicamente dentro de uma cápsula privada que se move entre destinos privados. O espaço público não existe como zona de trânsito habitável.

Em cidades walkable, a padaria no trajeto não é só padaria. É contato visual com outras pessoas, é a possibilidade de encontro não planejado, é a presença de humanidade que não requer esforço ativo para ser acessada. No Texas, acessar qualquer presença humana requer um deslocamento de carro e uma decisão deliberada de ir a algum lugar específico.

A liberdade que se torna prisão

Para quem não tem carro no Texas, a situação é objetivamente difícil. Para quem tem carro, há uma liberdade de movimento que não existe em cidades com menos espaço. O Texas oferece acesso a paisagens, a espaços naturais, a bairros e cidades a distâncias que seriam inviáveis em contextos mais densos. Há uma versão do Texas que é vastidão, que é espaço, que é a possibilidade de ir a lugares que não existem em cidades compactas.

Mas a liberdade do carro pode se transformar em prisão quando não há lugar para onde ir que valha a pena ir. Quando não há rede social que justifique os quarenta minutos de trânsito para chegar até ela. Quando os lugares disponíveis são shopping centers e restaurantes de rede que existem da mesma forma em qualquer parte do Texas e que não produzem a sensação de que há uma vida específica nesse lugar que só pode ser vivida aqui.

A combinação de liberdade de movimento com ausência de destino significativo pode produzir uma forma de aprisionamento que é paradoxal: a pessoa tem carro, tem gasolina, tem a capacidade técnica de ir a qualquer lugar. Mas não sabe para onde ir. E a vastidão que está disponível em torno dela, em vez de abrir possibilidades, confirma a ausência de conexão com o lugar.

O que a mobilidade restringe quando é só de carro

Há um aspecto da vida car-dependent que afeta a saúde mental de formas que não são sempre reconhecidas: a ausência de movimento a pé como prática cotidiana integrada.

O corpo humano foi desenhado para movimento. Caminhar tem efeitos documentados no humor, na função cognitiva, na regulação do estresse. Não caminhar como exercício deliberado, mas caminhar como parte do cotidiano, os passos que acontecem entre o ponto A e o ponto B quando o percurso é feito a pé. No Texas car-dependent, esses passos frequentemente não acontecem. A pessoa vai do estacionamento da casa para o carro, do carro para o estacionamento do destino, do estacionamento para dentro do edifício. Os passos cotidianos somam uma fração do que somariam numa cidade a pé.

Isso tem efeito em variáveis biológicas que estão associadas ao humor. E tem efeito na qualidade da presença no espaço: o corpo que está no carro não está no lugar da mesma forma que o corpo que está andando no lugar.

O que pode ser diferente dentro do que existe

Mudar a estrutura urbana do Texas não é uma opção individual. Mas há ajustes que criam mais presença dentro do que existe. Identificar dentro da cidade onde há espaços com algum nível de walkability, parques, bairros que foram desenvolvidos com mais densidade, áreas comerciais que têm alguma vida a pé, e criar deliberadamente mais tempo nesses espaços. Usar o carro para chegar a contextos onde o corpo pode estar presente de formas que o carro não permite.

Há também o trabalho de examinar o que a clausura do carro está produzindo além do incômodo físico. O isolamento do Texas car-dependent frequentemente amplifica estados que já existiam. Solidão que estava presente se aprofunda quando não há o contato espontâneo que aliviaria minimamente. Ansiedade que estava presente se intensifica quando não há o movimento físico que a regularia parcialmente.

A terapia em português oferece espaço para examinar o que está acontecendo e o que pode ser diferente dentro do que existe. Se o que foi descrito aqui ressoa com o que você está vivendo, uma avaliação clínica pode ser um próximo passo.

Próximo passo

Avaliação clínica sem compromisso.
Online, em português.

A primeira sessão é de avaliação — não de terapia. Ao final você tem uma formulação do seu quadro e um plano proposto. Você decide se continua.