BRASILEIROS NO EXTERIOR

Trabalho em tech na Califórnia e ainda me sinto uma impostora

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Paula Karam · CRP 06/38806
6 min de leitura

Ela havia sido contratada por uma empresa de tecnologia em Los Angeles depois de dois anos tentando entrar no setor. O processo havia sido longo, havia exigido muito, e quando o email de oferta chegou ela havia ficado parada na frente da tela por alguns minutos sem conseguir processar que era real.

Na primeira semana no emprego, numa reunião de alinhamento com o time, um colega havia feito uma referência técnica que ela não havia entendido. Era uma sigla. Era algo que todo mundo no time aparentemente conhecia. Ela havia anotado discretamente para pesquisar depois e havia continuado a reunião com a sensação de que havia acabado de revelar que não pertencia ali.

Dois anos depois, ela ainda carregava alguma versão dessa sensação. O conteúdo havia mudado. A sigla ela havia aprendido há muito tempo. Mas havia sempre outra coisa que os outros sabiam que ela não sabia, outro contexto que chegava tarde, outra referência que denunciava que ela havia chegado de fora.

O que é a síndrome do impostor e por que tech a amplifica

Síndrome do impostor é o termo para um padrão psicológico em que a pessoa atribui seus sucessos a fatores externos, como sorte, timing ou engano dos outros, e vive com a expectativa de ser “descoberta” como menos competente do que aparenta. O sucesso não é internalizado como evidência de capacidade. É interpretado como exceção que pode ser revogada.

Esse padrão tem prevalência documentada em ambientes de alta performance, especialmente em pessoas de grupos sub-representados que chegam a contextos onde a maioria ao redor veio de trajetórias diferentes. E o setor de tecnologia, especialmente o de Los Angeles e do Vale do Silício, tem características que o amplificam de forma específica.

A velocidade de mudança do setor significa que há sempre algo novo que não se sabe. O vocabulário técnico se atualiza constantemente. As ferramentas mudam. Os frameworks mudam. Alguém que estava atualizado há seis meses pode estar desatualizado em alguma dimensão hoje. Isso cria um estado de atualização permanente que é objetivamente real, mas que para alguém com síndrome do impostor se torna evidência de inadequação em vez de característica do campo.

O que ser brasileira em tech na Califórnia adiciona

Há camadas específicas que a combinação de ser brasileira e estar em tech na Califórnia acrescenta ao padrão.

A primeira é a escassez de representação. Em muitos times de tech, brasileiros são raros. Latino-americanos em geral são sub-representados em posições técnicas sênior. A ausência de pessoas com trajetórias semelhantes no ambiente imediato pode criar a sensação de que se está num território que não foi mapeado por ninguém de onde se veio.

A segunda é a diferença de formação. O sistema de ensino de tecnologia no Brasil é sólido, mas tem diferenças em ênfase e em exposição a certas ferramentas e práticas que são padrão no Vale do Silício. Essas diferenças não indicam inferioridade de formação, mas criam gaps específicos que podem parecer, para quem está com síndrome do impostor, evidências de inadequação fundamental em vez de diferenças de contexto que são preenchíveis.

A terceira é o inglês. Mesmo para quem é fluente, o inglês técnico em reuniões rápidas com pessoas nativas tem uma dinâmica que pode criar atraso de processamento que não existe em português. A pessoa que está dois segundos atrasada na conversa porque está processando em segunda língua pode interpretar esse atraso como evidência de que está perdendo algo que os outros capturam.

Como a síndrome do impostor afeta o desempenho

A síndrome do impostor tem efeitos concretos sobre o desempenho que raramente são reconhecidos como originados no padrão psicológico. A pessoa que teme ser descoberta como incompetente frequentemente trabalha mais do que seria necessário para cobrir o suposto déficit que não existe. Dedica tempo excessivo à preparação para situações que não exigiriam aquele nível de preparação. Evita situações onde haveria risco de exposição, o que pode incluir evitar tomar iniciativa em projetos que seriam oportunidades de crescimento.

Há também o impacto nas interações. A pessoa com síndrome do impostor tende a minimizar suas próprias contribuições em conversas, a não compartilhar perspectivas em reuniões por medo de que sejam inadequadas, a não negociar promoções ou aumento com a força que sua contribuição justificaria. O resultado é que o talento existe mas não é percebido pelo ambiente porque os mecanismos que tornariam esse talento visível estão sendo suprimidos pelo padrão.

O que o ambiente de startup amplifica

Los Angeles tem uma cena de startups que tem crescido significativamente na última década, com concentração em áreas como tech de entretenimento, healthtech e fintech. Esse ambiente tem características que amplificam a síndrome do impostor de formas específicas.

Startups operam com velocidade alta e recursos limitados. A expectativa de que cada pessoa produza além da sua função formal é parte do modelo. Isso significa que há sempre mais do que se sabe para saber, sempre mais do que se faz para fazer. Para quem já está num estado de “nunca é suficiente”, esse ambiente oferece confirmação contínua.

Há também a cultura de fundadores e líderes que constroem narrativas públicas de competência excepcional. O ambiente de tech valoriza e recompensa a projeção de certeza. Quem tem síndrome do impostor se encontra num contexto onde os outros parecem não ter ela, o que reforça a interpretação de que o problema é específico dessa pessoa.

O que muda quando o padrão é reconhecido

A pesquisa sobre síndrome do impostor mostra que o reconhecimento do padrão tem efeito moderado por si só. Saber que se tem síndrome do impostor não a elimina. Mas abre espaço para examinar as evidências de competência com o mesmo rigor com que as evidências de incompetência costumam ser examinadas.

Na TCC, o trabalho com esse padrão envolve examinar as crenças centrais sobre competência e valor, identificar o viés de confirmação que seleciona evidências de inadequação e ignora evidências de capacidade, e construir gradualmente uma relação com o sucesso que permita internalizá-lo em vez de atribuí-lo a fatores externos.

Esse trabalho tem impacto real no desempenho, na satisfação com o trabalho e na qualidade das relações profissionais. Não porque muda o que a pessoa é capaz de fazer, mas porque muda a relação com o que já é capaz de fazer.

A terapia em português oferece esse espaço, num contexto onde as especificidades de ser brasileira em tech na Califórnia podem ser entendidas com a profundidade que têm. Se o que foi descrito aqui ressoa com o que você está vivendo, uma avaliação clínica pode ser um próximo passo.

Próximo passo

Avaliação clínica sem compromisso.
Online, em português.

A primeira sessão é de avaliação — não de terapia. Ao final você tem uma formulação do seu quadro e um plano proposto. Você decide se continua.