BRASILEIROS NO EXTERIOR

Vim para o Texas por causa do emprego — e o emprego era o único vínculo que eu tinha

PK
Paula Karam · CRP 06/38806
5 min de leitura

Ela havia aceitado o emprego no Texas depois de três meses procurando trabalho no Brasil. A empresa era americana, o salário era em dólar, o processo de contratação havia sido rápido. Não havia sido o Texas especificamente que ela havia escolhido. Havia sido o emprego, e o emprego estava no Texas.

Nos primeiros meses em Houston, o emprego havia sido tudo. Era o que estruturava os dias, o que fornecia contato humano, o que justificava a decisão de ter ido. As colegas eram agradáveis. Havia uma ou duas com quem ela almoçava regularmente. A rotina de trabalho havia se estabelecido com mais rapidez do que qualquer outra coisa.

Quando a empresa passou por reestruturação no décimo mês e ela foi dispensada junto com outros vinte funcionários, ela percebeu o que havia acontecido: o emprego havia sido o único vínculo que ela tinha. E sem ele, não havia mais nada.

O trabalho como substituto de vida social

O trabalho tem funções sociais que raramente são reconhecidas como tais até que deixem de existir. Fornece estrutura de tempo que organiza os dias. Fornece pertencimento a um grupo com objetivo compartilhado. Fornece identidade funcional, a resposta para “o que você faz” que é também, em muitos contextos, a resposta para “quem você é”. E fornece contato humano regular que, mesmo quando não se aprofunda em amizade, satisfaz uma parcela da necessidade social do sistema nervoso.

Para quem migrou para um lugar que não escolheu ativamente e que ainda não desenvolveu vínculos fora do contexto profissional, o trabalho pode tornar-se o substituto de toda a infraestrutura social que existia antes. Não por decisão consciente. Por ausência de alternativa imediata e por ausência de percepção de que o que estava sendo construído era frágil.

A fragilidade só se torna visível quando o emprego vai embora. Nesse ponto, o que revela não é apenas a perda do emprego. É a ausência de tudo o mais que o emprego estava mascarando: a solidão que estava lá desde o início, a ausência de vínculos que poderia ter sido trabalhada mas não foi porque havia o trabalho, a pergunta sobre o que está fazendo no Texas que havia sido adiada porque havia o emprego para responder.

A crise composta: perda de emprego no exterior

Perder o emprego é difícil em qualquer contexto. No exterior, tem dimensões adicionais que a tornam qualitativamente diferente.

Há a dimensão documental: dependendo do visto, a perda do emprego pode criar incerteza sobre o status imigratório. Mesmo quando não cria, a percepção de que pode criar é suficiente para adicionar uma camada de ansiedade que não existe no mesmo grau quando se perde o emprego no país de origem.

Há a ausência da rede de suporte que estaria disponível no Brasil. A família que poderia oferecer suporte emocional está a oito ou dez horas de fuso horário. Os amigos que conhecem a pessoa desde antes, que forneceriam o contexto de segurança que existe em relações antigas, estão longe. O que está disponível em Houston é a rede que havia, e a rede que havia era o trabalho.

E há a dimensão existencial: a crise do emprego obriga a confrontar a pergunta que o emprego havia evitado. O que ela está fazendo no Texas? Se não era o Texas que havia escolhido, se havia ido pelo emprego, e o emprego acabou, o que sustenta a presença ali?

O padrão que o emprego como âncora cria

Quando o trabalho é o único vínculo, há um padrão de comportamento que se estabelece que tem consequências além da situação imediata. A pessoa investe progressivamente mais no contexto de trabalho, onde há conexão social, e progressivamente menos no contexto extra-trabalho, onde não há. O resultado é uma concentração de recursos sociais no emprego que torna o emprego cada vez mais insubstituível e que torna a construção de vida social fora dele cada vez menos provável.

Esse padrão é compreensível. É a resposta racional de um sistema nervoso que vai onde há conexão disponível. Mas é também o padrão que torna a perda do emprego tão devastadora quando acontece: o colapso não é só do emprego, é de toda a estrutura social que estava nele.

Na clínica, o que observo é que pessoas que passaram por esse ciclo frequentemente desenvolvem, depois, uma relação de hipervigilância com o emprego seguinte. O medo de perder o que é o único vínculo disponível pode produzir um estado de ansiedade crônica no contexto de trabalho que compromete o desempenho e que cria exatamente o risco que estava tentando evitar.

O que pode ser diferente

Uma parte do trabalho clínico com esse padrão é, simplesmente, reconhecer o que aconteceu e o que estava embaixo. A perda do emprego foi real e foi difícil. A ausência de rede social fora do trabalho foi uma condição que se instalou gradualmente e que não foi percebida até que se tornou a única realidade disponível.

Outra parte é construir estrutura social fora do trabalho de forma deliberada, antes que haja uma próxima perda para tornar a necessidade óbvia. No Texas, isso requer estratégia específica porque a cidade não favorece o encontro espontâneo da mesma forma que contextos mais densos favorecem.

A terapia em português oferece, no mínimo, um vínculo que não depende do emprego. Um espaço para examinar o que aconteceu e o que pode ser construído diferente. Se o que foi descrito aqui ressoa com o que você está vivendo, uma avaliação clínica pode ser um próximo passo.

Próximo passo

Avaliação clínica sem compromisso.
Online, em português.

A primeira sessão é de avaliação — não de terapia. Ao final você tem uma formulação do seu quadro e um plano proposto. Você decide se continua.