Brasileiros no Exterior

Marquei passagem de volta pro Brasil e cancelei três vezes

PKPaula Karam·10 de julho de 2026·9 min de leitura

A primeira vez havia sido em outubro.

Havia aberto o site da companhia aérea numa tarde de quarta-feira, havia encontrado uma passagem com preço razoável, havia colocado os dados do cartão, havia chegado até a tela de confirmação. E havia fechado o navegador sem comprar.

Havia dito a si mesma que não era o momento certo. Que queria pensar mais. Que ia voltar ao site depois.

A segunda vez foi em fevereiro. Dessa vez havia chegado mais longe: havia comprado a passagem, havia recebido o email de confirmação, havia olhado para as datas no calendário. Três dias depois havia cancelado. O reembolso havia sido processado em cinco dias úteis, e ela havia guardado o dinheiro de volta sem dizer para ninguém o que havia acontecido.

A terceira vez foi em maio. Marcou, cancelou no mesmo dia.

Quando chegou à sessão e contou isso, não era para ser analisado. Era quase para ser descartado, como um detalhe embaraçoso: “marquei e cancelei de novo, já é a terceira vez, não sei o que acontece comigo.” O que acontecia com ela tinha um nome. Mas o nome não era o ponto.

O que o ato de cancelar revela

Há uma distinção importante entre não conseguir tomar uma decisão e tomar a mesma decisão repetidamente sem sustentá-la.

Quem não consegue tomar a decisão fica num estado de suspensão: não marca, não cancela, fica olhando para a pergunta sem se mover. O sofrimento é o da paralisia, da espera, da incapacidade de agir.

Quem cancela repetidamente está fazendo algo diferente. Está tomando a decisão, sentindo o que ela produz, e depois desfazendo antes que as consequências se tornem reais. O ato de cancelar não é a ausência de decisão — é uma decisão diferente, tomada depois que a primeira produziu algo que precisou ser evitado.

Quando a mesma pessoa marca e cancela três vezes, o padrão é mais informativo do que qualquer uma das ações isoladas. O que marcou três vezes diz que alguma parte dela quer ir. O que cancelou três vezes diz que outra parte, ou a mesma parte em outro momento, não consegue sustentar o que ir implicaria.

A pergunta útil não é “o que está errado com você?” — é “o que aparece entre marcar e cancelar?”

A janela entre o clique e o cancelamento

Para a maioria das pessoas que passam por esse padrão, há algo específico que acontece depois que a compra é feita e antes que o cancelamento ocorra. Não é vazio. É uma série de pensamentos e imagens que chegam com uma intensidade que não estava presente quando o site estava aberto.

Às vezes é a imagem concreta do que precisaria ser feito: avisar o trabalho, resolver o apartamento, ter uma conversa com as pessoas com quem está construindo vida no lugar onde está. Essas imagens não são abstratas — têm rostos, têm falas imaginadas, têm o peso real do que seria necessário fazer.

Às vezes é a antecipação de perda. Não o retorno em si, mas o que o retorno significa em termos do que fica para trás. Os amigos que ficaram no exterior. O trabalho que foi construído. A versão de si mesma que existe naquele contexto e que não tem como ser transferida para outro lugar sem que algo se perca no processo.

Às vezes é a antevisão do que vai ser encontrado de volta: as conversas que vão precisar ser tidas, as expectativas das pessoas que ficaram, a dinâmica familiar que estava pausada e que vai retomar exatamente de onde parou.

Nenhuma dessas coisas é irracional. São informações reais sobre o que o retorno implicaria. O problema não é que elas aparecem — é que aparecem depois do clique, quando a decisão já foi tomada, e produzem uma urgência de desfazer que sobrepõe tudo que havia motivado a marcação.

Sobre a ambivalência que não se resolve sozinha

Ambivalência não é indecisão fraca. É o estado de ter dois conjuntos de razões genuínas e legítimas que apontam em direções opostas, com intensidade suficiente para que nenhum dos dois consiga se impor completamente ao outro.

Quem quer voltar ao Brasil tem razões reais para isso: a família, a língua como primeira língua e não como língua adquirida, o custo emocional de viver longe das pessoas que importam, a pergunta sobre onde se quer envelhecer, a saudade que não passa. Essas razões não são sentimentalismo — são dados sobre o que essa pessoa valoriza.

Quem não consegue sustentar a passagem comprada também tem razões reais: o que foi construído no exterior, os relacionamentos que existem lá, a versão de si mesma que emergiu a partir daquela experiência, o medo de que o Brasil imaginado não corresponda ao Brasil real. Essas razões também são dados.

Quando os dois conjuntos de razões são genuinamente fortes, a ambivalência não se resolve sozinha com o tempo. O tempo passa e a ambivalência continua, porque as razões de ambos os lados continuam sendo verdadeiras. A terceira passagem cancelada acontece exatamente como a segunda, e a quarta vai acontecer como a terceira, porque nada mudou na estrutura do problema.

O que a repetição produz

Há um custo específico do padrão repetido que vai além do custo de não decidir.

Cada ciclo de marcar e cancelar adiciona uma camada de evidência interna de que a decisão não é acessível, de que “alguma coisa acontece com você” que impede que você consiga fazer o que quer fazer. Com o tempo, essa evidência acumulada pode ser interpretada como defeito pessoal: falta de coragem, falta de clareza, incapacidade de se comprometer.

Essa interpretação é injusta. O que o padrão revela não é fraqueza de caráter — é a presença de um conflito genuíno que não está sendo examinado de forma que permita ser resolvido. Mas a injustiça da interpretação não elimina o efeito dela. A pessoa que cancelou três vezes e que está entrando no quarto ciclo carrega o peso de cada cancelamento anterior como confirmação de algo que está errado consigo.

Há também um custo prático: enquanto o ciclo continua, nenhuma das implicações do retorno pode ser preparada, porque preparar seria comprometer-se com uma decisão que vai ser desfeita. O trabalho de imaginar concretamente o que seria voltar, de ter as conversas que precisariam ser tidas, de começar a fazer o luto do que ficaria para trás — tudo isso fica suspenso na mesma ambivalência que suspende a passagem.

O que diferencia examinar de ruminar

Há uma distinção que o trabalho terapêutico torna possível: a diferença entre examinar a ambivalência e ruminar sobre ela.

Ruminar é revisitar o mesmo território repetidamente sem que o percurso produza nada novo. A pessoa pensa nas razões para voltar, pensa nas razões para ficar, chega ao mesmo ponto de impasse, desiste de pensar, e depois começa de novo. O ciclo é circular: não há ponto de chegada porque o objetivo implícito não é resolver mas continuar tendo as duas opções.

Examinar é diferente. Examinar envolve identificar o que está impedindo que qualquer uma das opções seja sustentada, trabalhar especificamente com esse impedimento, e mudar o estado interno de forma que a decisão que vier seja tomada de um lugar diferente do impasse.

Examinar pode revelar, por exemplo, que o medo de que o retorno decepcione é tão intenso que bloqueia qualquer possibilidade de avaliação realista — e que esse medo precisa ser trabalhado antes que a avaliação do retorno seja possível. Ou que a antecipação de perda do que foi construído no exterior está sendo tratada como perda total, quando a realidade seria mais nuançada. Ou que há uma conversa que precisaria ser tida com alguém específico e que está sendo evitada, e que essa evitação está sustentando o cancelamento.

Como a TCC trabalha com esse padrão

O ponto de entrada do trabalho terapêutico não é a decisão — é o padrão. O que acontece entre marcar e cancelar? Que pensamentos aparecem? Que imagens? Que sensação física, se houver? O que a pessoa está tentando evitar quando cancela?

Esse mapeamento não é abstrato. É concreto e específico, porque o que aparece para cada pessoa é particular à sua situação, à sua história com o Brasil, ao que foi construído no exterior, ao que a família representa, ao que o retorno ameaça.

O trabalho cognitivo examina as crenças que tornam o cancelamento necessário. “Se eu voltar e não for o que espero, terei destruído o que construí aqui por nada.” “Minha família vai ter expectativas que não vou conseguir cumprir.” “Não vou conseguir me readaptar.” Cada uma dessas crenças pode ser examinada: o que há de verdadeiro nelas, o que há de exagerado, o que estaria disponível para lidar com o que pode acontecer.

O trabalho comportamental pode incluir formas de criar contato com o que seria o retorno sem o custo total de uma decisão irreversível: uma visita mais longa, uma conversa concreta com pessoas que voltaram, uma avaliação cuidadosa do que efetivamente mudaria e do que poderia ser preservado.

Sobre a quarta passagem

A quarta passagem pode ser igual às três anteriores. Pode ser marcada com a mesma esperança, seguida pela mesma janela de pensamentos difíceis, seguida pelo mesmo cancelamento. Esse ciclo pode continuar indefinidamente sem que nada mude internamente.

Ou pode ser o momento em que o padrão é reconhecido como informação em vez de falha, e o que está dentro da janela entre marcar e cancelar pode ser examinado com o espaço e o suporte que esse tipo de exame exige.

Psicoterapia em português, para quem está num ciclo de marcação e cancelamento, é o lugar onde a ambivalência pode ser olhada de perto sem que precise ser resolvida na sessão. Onde o que aparece no intervalo pode ser nomeado sem pressa. Onde a decisão que vier — qualquer que seja — pode ser tomada de um lugar que tem mais clareza do que o impasse que existe agora.

Uma avaliação clínica pode ser o começo de entender o que está acontecendo no intervalo.

Próximo passo

Avaliação clínica sem compromisso.
Online, em português.

A primeira sessão é de avaliação — não de terapia. Ao final você tem uma formulação do seu quadro e um plano proposto. Você decide se continua.

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