Vim estudar em Boston e ninguém me disse que faculdade americana pode ser assim solitária
A universidade americana havia parecido, de longe, um lugar com vida social intensa. O que ninguém havia dito é que a universidade americana tem uma cultura de solidão própria que coexiste com toda essa infraestrutura.
Sou de Governador Valadares, estou em Massachusetts — e a saudade tem endereço
Governador Valadares tem uma diáspora tão consistente que produziu uma cultura de migração própria. Mas há algo que esse conhecimento acumulado não transfere completamente: o que é perceber que a saudade que você sente não é de uma abstração chamada Brasil — é de um cheiro específico, de uma luz específica de final de tarde no Vale do Rio Doce.
O inverno de Boston era previsível — o que ele me fez por dentro não era
Ela havia pesquisado o inverno de Boston antes de chegar. Havia comprado o casaco certo, as botas certas. O frio em si, ela havia conseguido manejar. O que não havia pesquisado era o que o confinamento de novembro a março faz com uma pessoa que ainda não construiu uma vida social no lugar onde está.
A família toda migrou para Miami — e o peso disso não era o que eu esperava
A migração da família inteira para Miami havia parecido, no planejamento, mais fácil do que migrar sozinha. O que ninguém havia previsto é que em Miami, com a família inteira em volta, ela se tornaria a pessoa responsável por todos eles.
Miami tem sol, tem brasileiro, tem tudo — e eu nunca me senti tão sozinha
Ela estava em Miami há quatro anos. Tinha contatos na comunidade. Aparecia em eventos. Era simpática, bem recebida, incluída nas conversas. E nunca havia se sentido tão sozinha em toda a sua vida.
Tenho tudo regularizado em Miami e mesmo assim não consigo estar bem
Ela tinha o green card. Tinha o emprego. Tinha o apartamento. Cada item havia sido uma batalha. Num domingo à tarde em Miami, olhando para tudo isso que havia conquistado, não conseguia sentir nada que se parecesse com bem-estar.
Em Miami nunca precisei aprender inglês — e agora isso me prende
Em Miami, é possível viver sem inglês. Não de forma teórica — de forma literal. Para quem chega exausta do processo de migração, essa disponibilidade é um alívio. Para quem está em Miami há cinco anos e ainda não fala inglês com fluência, ela se tornou uma prisão.
Miami parece o Brasil — e essa foi exatamente a armadilha
Três meses depois de chegar a Miami, ela havia feito a maior parte das coisas que precisava em português. Dois anos depois, quando a promoção foi para uma colega que chegou depois mas falava inglês com fluência, ela entendeu o que havia acontecido. Miami tinha sido tão parecida com o Brasil que ela nunca havia precisado, de fato, chegar.
Vivo na periferia de Londres e me sinto a quilômetros de tudo que vim buscar
O apartamento que dava no orçamento ficava em zone 4. Quarenta e cinco minutos de tube até o escritório. A vida londrina que havia planejado ficava a uma hora e meia por dia de distância — mais quando havia atraso. Depois de um ano, os fins de semana não eram para explorar a cidade. Eram para recuperar a semana.
Depois do Brexit fiquei em Londres num limbo que ninguém sabe explicar
As regras mudaram. Mudaram de novo. Foram anunciadas, contestadas, postergadas, redefinidas. Para quem estava em Londres sem passaporte europeu, a incerteza não era abstrata — era a pergunta concreta, presente toda semana, de se o lugar onde havia construído sua vida continuaria sendo o lugar onde teria direito de estar.