Londres me deu tudo que eu pedi — e eu ainda não consigo estar bem
Dois anos depois de chegar a Londres, ela tinha o emprego, o apartamento no bairro certo, o salário. A vida que havia planejado por três anos. E havia chorado no banheiro do trabalho numa quinta-feira sem conseguir explicar por quê.
Meu inglês era fluente antes de chegar em Londres — lá ele nunca parecia suficiente
Ela havia passado anos estudando inglês antes de chegar a Londres. Na primeira reunião de trabalho, o colega à sua esquerda começou a falar e ela perdeu dois terços do que foi dito. Esse foi o início do colapso silencioso da confiança linguística numa língua que a pessoa já falava fluentemente.
O inverno em Londres não é só o frio — é o que ele faz com quem está sozinho
Em outubro, a luz em Londres começa a ir embora por volta das quatro da tarde. Para quem está chegando, essa frase parece factual. Mas há uma diferença entre saber sobre o escuro e entrar dentro dele pela primeira vez sem ninguém para dividir o apartamento quando a noite chega cedo demais.
Fui para Lisboa fugindo de algo — e em Lisboa percebi que estava fugindo de mim
Ela havia dito que foi para Lisboa por causa de uma oportunidade. Dezoito meses depois, numa sessão de terapia, disse pela primeira vez: “Acho que eu não vim para Lisboa. Eu fui do Brasil.” A diferença entre as duas frases demorou semanas para ficar clara.
A Lisboa dos brasileiros não é a Lisboa dos portugueses — e eu descobri isso tarde
Havia dois mundos que se sobrepunham na mesma cidade. A comunidade brasileira com sua própria rede, suas próprias referências. E a Lisboa dos portugueses, paralela, difícil de acessar. Ela não estava em nenhum dos dois por inteiro.
Em Lisboa me sinto estrangeira num país que fala a minha língua
Ela falava a língua. Funcionava no trabalho, entendia tudo. E mesmo assim havia uma distância que o idioma compartilhado não havia resolvido — e que ela não conseguia nomear, porque a única explicação disponível tornava o que sentia inexplicável.
Consegui viver em Lisboa — e não estava preparada para o que me esperava
Ela passou seis meses se preparando. Planilha, pesquisa, poupança. Dois meses depois de chegar a Lisboa, sentada num café que custava o dobro do planejado, olhou para o plano e entendeu que quase nada havia funcionado como esperado.
Vim para Lisboa achando que o idioma seria a parte mais fácil
Ela havia chegado a Lisboa com uma certeza: a língua não seria o problema. Duas semanas depois, saiu de uma farmácia sem o que precisava — e sem palavras para nomear o que estava sentindo.
Decidi ficar — mas a decisão não me deu paz
Ela havia decidido ficar. Não de forma dramática, não com um momento de clareza súbita. Havia decidido de forma gradual, ao longo de algumas semanas, depois de ter passado dois meses pesando os dois lados com mais cuidado do que havia pesado em anos. Havia conversado com pessoas de confiança. Havia feito listas. Havia tentado […]
Marquei passagem de volta pro Brasil e cancelei três vezes
A primeira vez havia sido em outubro. Havia aberto o site da companhia aérea numa tarde de quarta-feira, havia encontrado uma passagem com preço razoável, havia colocado os dados do cartão, havia chegado até a tela de confirmação. E havia fechado o navegador sem comprar. Havia dito a si mesma que não era o momento […]