Brasileiros no Exterior

Fingi sotaque para ser levada a sério no trabalho

PKPaula Karam·9 de julho de 2026·6 min de leitura

Ela percebeu o que estava fazendo numa manhã de terça-feira, durante uma ligação de trabalho.

Estava num corredor do escritório, falando com um cliente em Londres, e num determinado momento se ouviu. Não a voz do que estava sendo dito, mas a voz em si: o ritmo das frases, a pronúncia das vogais, a entonação que havia assumido sem decisão consciente. Era uma voz que funcionava no contexto. Era uma voz que não era a dela.

Não havia sido uma escolha. Havia sido uma acumulação de ajustes pequenos ao longo de quase três anos em Dublin: encurtar as vogais, suavizar o sotaque brasileiro que marcava cada palavra, adotar o ritmo de fala local que parecia mais profissional, mais seguro, mais alinhado com quem era levado a sério naquele ambiente. Cada ajuste individualmente havia parecido razoável. No conjunto, haviam produzido alguém que ela encontrava no reflexo das janelas do escritório e reconhecia como competente, apresentável, e ligeiramente desconhecida.

O que é code-switching e por que acontece

Code-switching é o fenômeno de alternar entre estilos de comunicação, idiomas, ou formas de expressão dependendo do contexto social. Acontece com todos, em alguma medida: falamos de forma diferente numa reunião formal e numa conversa com amigos. Não é em si um problema.

Para pessoas de minorias culturais em ambientes dominados por outra cultura, o code-switching assume uma forma diferente e mais intensa. Não é apenas ajustar o registro. É suprimir sinais de identidade que foram interpretados, ou antecipados, como marcadores de diferença que reduzem credibilidade.

O sotaque é um desses sinais. Pesquisas sobre percepção de sotaque em ambientes profissionais documentam algo que quem tem sotaque numa segunda língua já sabe na prática: sotaques não-nativos tendem a ser associados a menor competência, independentemente do conteúdo do que é dito. Essa associação é irracional e injusta. É também real, e opera de forma automática em quem ouve, frequentemente sem que essa pessoa perceba que está fazendo a associação.

A resposta adaptativa de muitos imigrantes é trabalhar para reduzir o sotaque, não porque o sotaque seja um problema intrínseco, mas porque o custo de mantê-lo em determinados ambientes é alto. É uma resposta que faz sentido no nível da sobrevivência profissional. Tem um custo que aparece depois.

O que se perde no processo

O sotaque não é apenas uma característica fonética. É um marcador de onde a voz foi formada, em que idioma o pensamento se estruturou primeiro, de qual lugar geográfico e cultural a pessoa vem.

Quando o sotaque é suprimido sistematicamente, especialmente quando isso acontece por anos e no contexto profissional em que a pessoa passa a maior parte do tempo acordada, acontece algo que vai além da fonética. Há uma dissociação progressiva entre o self que é apresentado no trabalho e o self que existe nos outros contextos: na ligação com a mãe, na conversa com os amigos brasileiros, no momento em que a guarda cai.

Essa dissociação não é apenas inconveniente. Tem custo cognitivo, porque manter dois registros de forma constante consome recursos. Tem custo emocional, porque a pessoa que foi suprimida para caber no ambiente profissional frequentemente leva tempo para reaparecer nos outros contextos, e às vezes não reaparece mais de forma completa. E tem custo de identidade, que é a questão mais difícil: quem é essa pessoa quando está sendo a versão profissional, e quem é quando não está?

A invisibilidade de dentro

Há uma forma de invisibilidade que não é sobre ser ignorado. É sobre estar presente enquanto a parte mais reconhecível de quem se é está ausente.

A pessoa que fingi sotaque para ser levada a sério está presente na reunião. Está contribuindo, sendo ouvida, talvez até respeitada. E ao mesmo tempo, a voz que sai é uma performance de competência que mantém escondido o que veio antes: o sotaque que marca de onde veio, a forma de pensar que tem raízes em outra cultura, o humor que não traduziria bem, os referenciais que os colegas não reconheceriam.

Isso tem uma consequência específica que é difícil de nomear: o reconhecimento profissional que chega vai para a persona que foi construída para o ambiente, não para quem está por baixo. E o reconhecimento que vai para uma persona não alcança quem está por baixo dela. Acumula sem nutrir.

O momento em que o custo aparece

O custo do code-switching intenso raramente aparece de forma aguda. Aparece de forma gradual, em sintomas que parecem não ter relação com o trabalho de manter duas versões de si mesmo simultaneamente.

Pode aparecer como esgotamento desproporcional ao final de dias de trabalho que pareciam normais. Como dificuldade de relaxar num ambiente social misto, onde há colegas de trabalho e amigos brasileiros ao mesmo tempo, e onde a transição entre os dois registros é rápida e desconcertante. Como a sensação crescente de que o trabalho, mesmo quando está indo bem, está cobrando algo que não é apenas tempo e esforço.

Pode aparecer também como um estranho vazio depois de situações de sucesso profissional: a promoção que foi comemorada no dia, e que na semana seguinte deixa uma sensação de que o que foi reconhecido não era exatamente ela. Como se a vitória tivesse o nome certo mas a cara errada.

Como a TCC trabalha com isso

O trabalho terapêutico começa por nomear o que está acontecendo, sem minimizar e sem dramatizar. O code-switching cultural intenso é uma resposta adaptativa que teve razão de ser. Não é patologia, não é fraqueza, não é traição a uma identidade autêntica imaginária que deveria ter sido mantida intacta. É uma estratégia que funcionou num nível e cobrou num outro.

O trabalho cognitivo examina as crenças que sustentam o comportamento: a crença de que o sotaque reduz credibilidade de forma irreversível, a crença de que revelar origens culturais no ambiente profissional é um risco que não vale a pena correr, a crença de que a pessoa “real” não seria aceita se aparecesse. Algumas dessas crenças têm base em experiências concretas que merecem ser examinadas como foram. Outras são generalizações que cresceram além do que a evidência sustenta.

O trabalho comportamental, quando o terreno cognitivo permite, pode incluir experimentos graduais de autenticidade: revelar uma referência cultural num contexto de menor risco, usar o sotaque sem trabalhar para suavizá-lo numa conversa específica, observar o que acontece. Não como missão de recuperar uma identidade perdida, porque identidade não funciona assim, mas como forma de ampliar o repertório disponível em vez de restringi-lo a uma versão.

Sobre a voz que é mais funda

No corredor do escritório em Dublin, naquela terça-feira, depois que a chamada terminou, ela ficou um momento parada.

E então, sem audiência, disse alguma coisa em português. Uma frase qualquer, em voz baixa, com o sotaque inteiro. Só para ouvir como soava quando não estava sendo ajustado para ninguém.

Soou como ela.

Psicoterapia em português é o espaço onde essa voz pode ser usada sem ajuste, onde o que é contado pode ser contado no idioma em que foi vivido, e onde o custo de anos de code-switching pode ser reconhecido com a seriedade que merece.

Uma avaliação clínica pode ser o lugar onde essa voz encontra espaço para existir sem precisar ser a versão que cabe no ambiente.

Próximo passo

Avaliação clínica sem compromisso.
Online, em português.

A primeira sessão é de avaliação — não de terapia. Ao final você tem uma formulação do seu quadro e um plano proposto. Você decide se continua.

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