Brasileiros no Exterior

Vim para a Itália por dois anos. Já faz cinco. A Itália que eu imaginei e a que vivo são países diferentes.

PKPaula Karam·14 de julho de 2026·11 min de leitura

A conversa sobre ficar ou voltar que parecia temporária passou. Não houve um momento de decisão clara. Dois anos se tornaram três sem que houvesse um ponto em que a permanência fosse escolhida conscientemente. Três se tornaram quatro com a lógica de que já era tanto tempo que desistir pareceria desperdício. Quatro se tornaram cinco com a constatação de que o Brasil de antes já não existe mais e que o lugar que foi deixado não seria reencontrado da mesma forma mesmo se o retorno acontecesse agora. A Itália foi ficando por inércia tanto quanto por escolha, e essa mistura de inércia e escolha produz um estado específico que não é satisfação nem arrependimento. É algo mais confuso e mais difícil de nomear.

O que torna essa situação clinicamente relevante é a distância entre a Itália que foi imaginada antes de partir e a Itália que está sendo vivida há cinco anos. Não é que a Itália seja um lugar ruim. Tem beleza real, qualidade de vida real, redes reais que foram construídas ao longo do tempo. O problema não é o lugar. É a discrepância entre o que foi projetado e o que existe, e o que essa discrepância produz no sentido que a experiência toda faz quando é examinada em retrospecto. Cinco anos para chegar onde se está não era o roteiro. E ajustar o sentido da trajetória quando o roteiro original não se realizou é um trabalho psicológico que não acontece automaticamente com o tempo.

O Pigneto, em Roma, e o Oltrarno, em Florença, são bairros que aparecem na vida dos brasileiros que ficaram porque são bairros de permanência, não de passagem. Quem mora no Pigneto há três anos e no Oltrarno há dois tem uma relação com a Itália que é diferente da relação de quem chegou há seis meses. Tem raízes finas mas reais: o bar de sempre, o mercato que sabe o nome, o vizinho com quem se fala em italiano com fluência razoável. E tem também a clareza de que essas raízes finas não são iguais ao pertencimento que existia no Brasil, e que a decisão de ficar criou uma situação em que o pertencimento pleno não existe mais em lugar nenhum.

O que muda quando dois anos se tornam cinco sem uma decisão clara

Existe uma diferença importante entre ficar por escolha ativa e ficar por acúmulo de razões menores que em nenhum momento isolado chegaram a constituir uma decisão real. Quem fica por escolha ativa tem uma narrativa: tomei esta decisão por estas razões e assumo as consequências. Quem fica por acúmulo de razões menores tem uma trajetória sem narrativa clara, uma série de anos que aconteceram mas que não foram completamente desejados nem completamente recusados. Essa ausência de narrativa não é problema psicológico em si. Ela se torna um problema quando a pessoa tenta dar sentido a cinco anos de experiência e encontra dificuldade de articular por que ficou e o que esse tempo produziu de concreto além da passagem do tempo.

A dificuldade de articular sentido retroativo para a trajetória está associada, na literatura sobre imigração, a um tipo específico de ambivalência que se distingue da ambivalência sobre ficar ou voltar que aparece nos primeiros anos. Nos primeiros anos, a ambivalência é sobre uma decisão que ainda pode ser tomada: fico ou volto? Com cinco anos de permanência, a ambivalência é de natureza diferente: o que esses anos significam, e como a pessoa se relaciona com a escolha que foi feita, ou com a não-escolha que aconteceu, retroativamente. Essa segunda ambivalência é mais difícil de resolver porque não tem ação prática associada. Não é sobre o que fazer agora. É sobre como dar sentido ao que foi feito.

A Itália que foi imaginada antes de partir

O que a projeção pré-migratória cria

Antes de emigrar, o imigrante brasileiro cria uma representação mental do país de destino que é construída a partir de informações parciais, experiências de turista se houver, relatos de quem foi e voltou, e uma projeção de como a vida vai ser lá. Essa representação não é irracional: é o melhor mapa disponível antes da experiência direta. O problema é que o mapa nunca coincide completamente com o território, e a Itália que estava no mapa antes de partir tem elementos que o território real confirmou e elementos que o território real contradiz ou complica. Para quem ficou cinco anos, o processo de ajustar o mapa ao território foi longo e gradual, com cada ano revelando novas discrepâncias entre o que foi esperado e o que existe.

A projeção pré-migratória da Itália costuma incluir: vida mais lenta e prazerosa do que no Brasil, beleza cultural acessível no cotidiano, relações de trabalho mais equilibradas, acesso a uma identidade europeia que abriria portas. Alguns desses elementos se confirmaram em parte. Outros se revelaram mais complicados na realidade do que na projeção: a burocracia que ninguém descreveu em detalhe, o fechamento social que demora muito mais do que se esperava para se abrir, o custo emocional de viver permanentemente num segundo idioma, a saudade que não passa mesmo depois de anos.

O que a Itália real foi mostrando ao longo dos cinco anos

Desilusão não é fracasso

A desilusão migratória é um processo que não tem momento único de ocorrência. Ela acontece em camadas, ao longo do tempo, com cada camada revelando um elemento da realidade que a projeção inicial não havia capturado. A primeira camada costuma ser a burocracia. A segunda é o social. A terceira é o trabalho. A quarta é a percepção de que as razões que motivaram a ida não se realizaram da forma esperada. E a quinta, que aparece por volta do terceiro ou quarto ano para muitos imigrantes de longa duração, é a percepção de que a identidade foi se transformando num espaço que não é completamente a Itália e não é mais completamente o Brasil. Esse processo de desilusão progressiva não é fracasso. É a experiência normal de quem passa tempo suficiente num lugar para ver além da superfície. O problema começa quando a desilusão não é processada e se transforma em ressentimento difuso ou em negação que impede que o que existe de bom seja reconhecido.

O que o Pigneto e o Oltrarno mostram sobre a permanência longa

O Pigneto, em Roma, é um bairro com caráter próprio que foi mudando ao longo da última década, com gentrificação progressiva e chegada de população mais jovem e criativa. Para o brasileiro que vive no Pigneto há alguns anos, o bairro carrega uma memória de como era quando chegou e uma percepção de como está agora, o que já é em si uma forma de pertencimento temporal que o turista não tem. O pertencimento pelo tempo, pela memória dos lugares e das mudanças, é diferente do pertencimento cultural profundo, mas não é insignificante. É o que produz a sensação de que esse lugar tem alguma relação com a história pessoal, mesmo que essa história tenha sido construída de forma não completamente planejada.

O Oltrarno, em Florença, tem um caráter mais artesanal e local do que outros bairros turísticos da cidade. Para quem vive ali de forma permanente, existe a experiência de ver Florença além do cartão postal: a escola onde as crianças do bairro brincam, o mercado que vende para quem mora, os horários e ritmos de uma cidade que é muito mais do que o que o turismo consegue capturar. Essa camada da Itália real, que só fica visível com permanência longa, é ao mesmo tempo a parte mais valiosa da experiência migratória e a parte que mais distancia a pessoa do Brasil, porque o Brasil não tem esse lugar específico.

O que acontece com a identidade quando o projeto original não se realizou como imaginado

Quem sou eu depois de cinco anos aqui

A identidade do imigrante de longa duração está numa zona específica que a literatura chama de hibridismo cultural: nem completamente o que era quando saiu do Brasil, nem completamente integrado à cultura italiana. Esse hibridismo pode ser enriquecedor quando é vivido como expansão: a pessoa se percebe como alguém que tem acesso a dois referenciais culturais e que pode transitar entre eles. Ele se torna problemático quando é vivido como inadequação: a pessoa não é suficientemente italiana para se sentir em casa na Itália e não é mais completamente brasileira para se sentir em casa no Brasil. Não pertencer de forma completa a nenhum dos dois lugares é uma experiência que tem nome e que tem intervenção clínica disponível, mas que raramente é identificada como tal porque não parece um problema nomeável do lado de fora.

A questão sobre o que cinco anos aqui produziram raramente tem resposta simples e satisfatória. Produziram carreira, relações, experiências, um nível de vida que não seria possível no Brasil. Mas a conta não fecha de forma limpa quando o que também é considerado é o que esses cinco anos custaram: o distanciamento da família, os eventos que foram perdidos, os amigos que foram ficando para trás, a versão de si mesmo que existia no Brasil e que foi sendo substituída por uma versão que funciona bem em italiano mas que às vezes não reconhece a si mesma quando pensa em português.

Psicólogo para brasileiros na Itália: quando a desilusão migratória precisa de espaço

Luto do projeto e ressignificação da trajetória

A terapia com imigrantes de longa duração trabalha frequentemente com um processo que tem características de luto: o luto pelo projeto original que não se realizou da forma esperada. O trabalho não é sobre lamentar o que não aconteceu. É sobre reconhecer que o projeto original não se realizou como foi imaginado, processar o que isso significa, e identificar o que existe de concreto e valioso na trajetória real que aconteceu, em vez da trajetória imaginada. Esse processo de ressignificação não é resignação. É a condição para que a experiência presente seja vivida com mais presença e menos comparação com um roteiro que nunca vai mais se realizar porque o tempo passou.

ACT e a relação com o não resolvido

A Acceptance and Commitment Therapy oferece ferramentas específicas para situações em que o sofrimento não vem de um problema que pode ser resolvido, mas de uma relação difícil com o que não pode mais ser mudado. O que não pode mais ser mudado são os cinco anos que passaram e as decisões que foram tomadas ou não tomadas durante eles. O que pode ser trabalhado é a relação com esses cinco anos: se eles são vividos como tempo perdido ou como tempo que produziu algo, mesmo que diferente do que foi imaginado. A ACT não elimina a ambivalência sobre ter ficado tanto tempo. Ela trabalha para que a ambivalência não seja o estado dominante que impede que o presente seja habitado de forma mais plena.

Terapia online para brasileiros na Itália: como funciona

Atendimento em português para qualquer cidade italiana

O atendimento da Cognicom Global é online, conduzido em português, disponível para brasileiros em qualquer cidade da Itália, sejam Roma, Florença, Milão, Torino, Bolonha ou qualquer outro lugar. O formato online é especialmente adequado para quem está há anos no exterior porque elimina barreiras logísticas e garante que o que precisa ser dito pode ser dito com precisão, na língua em que esses cinco anos foram vividos internamente.

Fuso horário Itália e Brasil

A Itália está entre 4 e 5 horas à frente do Brasil. Os horários de fim de tarde e início de noite italianos coincidem com o expediente brasileiro, tornando o agendamento compatível com a jornada de trabalho sem necessidade de acordar cedo ou ficar acordado tarde para encaixar a sessão.

Avaliação inicial

O processo começa com uma avaliação clínica inicial sem compromisso de continuidade. O objetivo é entender o contexto específico: há quanto tempo está na Itália, o que está funcionando, o que não está, o que mudou em relação ao que foi esperado. A partir daí se define se e como o trabalho terapêutico é o passo adequado. Quem está há cinco anos aqui e sente que algo não está como poderia ser não precisa de mais tempo para saber que merece uma conversa sobre isso.

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