Tem uma conversa que o brasileiro que está em Dubai há alguns anos às vezes tem com pessoas que conheceu depois de chegar. Alguém pergunta por que você veio, e a resposta honesta começa com aventura, com curiosidade, com querer ver como era viver num lugar tão diferente do Brasil. A resposta continua com o contrato que apareceu na hora certa, o salário que parecia irreal comparado ao que se ganhava em reais, e a decisão que pareceu fácil porque era para ser por um tempo. E a conversa termina com o número de anos que passou desde que chegou, que costuma ser maior do que a resposta original sugeria. Não foi por dois anos. Foi por quatro. Ou por seis. E cada renovação de contrato foi uma decisão que se tomou sem pensar demais porque as condições continuavam fazendo sentido e a alternativa de voltar para o Brasil levantava perguntas que a pessoa não estava pronta para responder.
Em Deira, bairro no lado norte da Dubai Creek e um dos mais antigos e movimentados da cidade, essa trajetória aparece com frequência entre os brasileiros que ficaram mais tempo do que planejavam. Deira tem um caráter diferente do Dubai das revistas: é comercial, movimentada, multicultural de um jeito que inclui mais cheiro de especiaria do que vidro espelhado. Para quem veio pela aventura, Deira tem algo de genuíno que o centro financeiro não tem. Mas Deira também é o lugar onde o brasileiro que renovou o contrato pela terceira vez começa a perceber que a aventura virou hábito e o hábito virou identidade de conveniência: ele está aqui porque aqui funciona, não porque escolheu de novo, ativamente, ficar aqui em vez de qualquer outra coisa.
Em Abu Dhabi, onde outro grupo de brasileiros fez a mesma trajetória mas numa cidade mais sóbria, a versão da pergunta é um pouco diferente em tom mas idêntica em essência. O contrato em Abu Dhabi tende a ser mais institucional: corporação grande, projeto de governo, infraestrutura. As renovações também acontecem, os anos também passam, e a pergunta de o que fica quando o contrato acabar também aparece, muitas vezes de forma mais abrupta porque em Abu Dhabi os projetos têm prazo previsto e a data de encerramento fica visível no calendário com antecedência suficiente para produzir angústia antes de produzir clareza.
O que acontece quando a aventura vira hábito e o hábito vira identidade de conveniência
A aventura tem um valor específico: ela é escolhida ativamente, tem novidade, produz a experiência de expansão. O brasileiro que foi para Dubai pela aventura nos primeiros meses vivia em modo de exploração: tudo era novo, tudo tinha textura, havia algo para descobrir em cada direção. Esse modo de aventura é genuíno enquanto dura. O problema é que não dura para sempre, e quando a aventura se transforma em rotina, o que fica é uma rotina num contexto que não tem os suportes que a pessoa deixou para trás quando saiu do Brasil. A transição da aventura para a rotina não é marcada por nenhum evento específico: acontece gradualmente, e só fica visível quando a pessoa para e olha para quanto tempo passou.
O hábito que se forma depois que a aventura passa não é necessariamente ruim. Ter rotina, ter lugares conhecidos, ter pessoas com quem conviver, é o que torna a vida vivível em qualquer lugar. Mas o hábito formado num contexto temporário tem uma característica que o diferencia do hábito formado num contexto escolhido como permanente: ele não foi construído com a intenção de ficar. As amizades foram feitas com o pressuposto implícito de que qualquer um dos envolvidos pode ir embora. O apartamento foi mobiliado para ser funcional, não para ser lar. A rotina foi montada para servir ao contrato, não para servir ao projeto de vida. Quando os anos passam e tudo isso ainda está igual, a identidade que se construiu nesse contexto começa a revelar que tem um custo que não aparecia no começo.
Deira e o que a Dubai que não aparece nas fotos revela sobre quem ficou
Deira é uma das partes de Dubai que os brasileiros que ficaram mais tempo costumam conhecer melhor do que quem passou rapidamente. Não é a Dubai das atrações turísticas nem a Dubai das festas de networking de expatriados. É uma Dubai comercial, com mercados de ouro, de especiarias, com balsas cruzando o Creek, com uma mistura de culturas do Sul da Ásia, do Oriente Médio e de vários outros lugares que produz um ambiente bastante diferente do que as imagens de cartão postal mostram.
Para quem ficou anos, Deira é às vezes o lugar onde a Dubai real, a que não aparece nas fotos, fica mais visível. E o que essa Dubai real frequentemente revela é que o expatriado que está aqui há anos continua sendo de passagem no mesmo sentido que estava no primeiro ano: não pertence ao tecido social local de uma forma que o ambiente reconhece e retribui. Pode conhecer os vendedores pelo nome, pode ter suas preferências respeitadas, pode ser cliente regular do açougue e do pão de queijo que alguém descobriu que dá para fazer aqui. Mas o pertencimento que a cidade oferece ao expatriado continua sendo o pertencimento do mercado ao cliente, não o pertencimento da comunidade a quem construiu algo junto ao longo do tempo.
Por que não saber o que fica é diferente de não ter nada
A diferença entre vazio e abertura sem mapa
Quando o contrato está perto do fim, ou quando a renovação está vindo mas a pessoa não sabe mais se quer renovar, aparece uma pergunta que parece simples mas não é: o que fica de mim quando eu sair daqui. Não é pergunta sobre o que vai fazer a seguir, embora essa pergunta também apareça. É uma pergunta sobre o que da experiência aqui vai permanecer como parte de quem a pessoa é, independente de onde ela esteja depois. E quando a resposta é difusa ou assustadoramente vaga, a primeira leitura costuma ser que não há resposta porque não há nada.
Mas não saber o que fica não é o mesmo que não ter nada. É uma pergunta que ainda não encontrou as palavras certas, porque as palavras certas para nomear o que anos num lugar como Dubai fazem com quem passa por eles não estão prontas no vocabulário usual de “aprendi muito” ou “cresci bastante”. O que Dubai faz com quem ficou anos é mais específico e às vezes mais ambíguo do que essas frases capturam. Identificar o que de fato ficou, e o que de fato foi custoso de uma forma que vale a pena reconhecer, é trabalho que precisa de mais espaço do que o aeroporto oferece na hora da partida.
Abu Dhabi e o contrato que termina sem deixar claro para onde vai o que ficou aqui
Abu Dhabi tem projetos com prazo. Infraestrutura, energia, governo: são áreas onde o contrato tem início, meio e fim razoavelmente previsíveis. Para o brasileiro que está em Abu Dhabi num projeto com prazo de cinco anos, a data de encerramento esteve no calendário desde o início. Mas o calendário não preparou a dimensão emocional do que significa o fim daquele contrato. A dimensão emocional vai aparecendo conforme a data se aproxima, e costuma aparecer primeiro como logística: para onde vou, o que faço, como fico no Brasil depois de anos fora, o que muda na vida das pessoas que dependem do que eu mando.
Atrás da logística, quando há espaço para chegar lá, está a questão de identidade: quem eu sou depois de anos num projeto que era a estrutura principal ao redor da qual tudo foi organizado. Nos Emirados, essa questão fica mais acentuada do que em outros países porque não há perspectiva de permanência que tivesse se formado ao longo dos anos como alternativa ao projeto. O projeto acabou e vai embora. A cidade não oferece nenhum ponto de ancoragem que seja independente do projeto. E o Brasil espera do outro lado como um lugar que a pessoa saiu antes de ser quem é agora, o que torna a volta mais complicada do que simplesmente retornar para onde estava.
O que a vida por contrato faz com o sentido de continuidade
Viver por contratos renováveis tem uma lógica própria que vai moldando o modo como a pessoa se relaciona com o tempo. Cada contrato é um capítulo com data de início e possível data de fim. A renovação é decidida com base em condições que muitas vezes não dependem apenas da pessoa: o mercado, a empresa, o projeto, a situação econômica do setor. Essa lógica de capítulos renováveis é diferente da lógica de construção contínua que a maioria das pessoas tem como referência para uma vida que vai se desenvolvendo ao longo de décadas com algum grau de continuidade reconhecível.
Com o tempo, essa lógica de capítulos vai afetando o modo como a pessoa se relaciona com os próprios projetos internos. Se o contexto externo é sempre provisório e dependente de renovação, o projeto interno também passa a ser pensado em termos de capítulos: quando esse contrato acabar, aí então vou fazer X. Quando voltar para o Brasil, aí então resolvo Y. O projeto de vida vai sendo postergado para depois do provisório, que nunca chega ao fim porque cada contrato que acaba produz o próximo. Isso não é falta de coragem ou indecisão: é um efeito previsível de viver por anos numa estrutura que trata a presença como temporária e a continuidade como sempre contingente.
Psicólogo para brasileiros em Dubai: atendimento para quem está entre o prazo e o projeto
O trabalho terapêutico com brasileiros em Dubai que estão na posição de não saber o que fica começa pelo reconhecimento de que essa incerteza não é falha de perspectiva nem sinal de que a pessoa não cresceu o suficiente nos anos que passou aqui. É o resultado natural de ter vivido anos num contexto que foi construído para ser eficiente e funcional sem ser duradouro. O que a pessoa construiu aqui é real. O que ela não sabe ainda é como nomear o que foi construído num vocabulário que faça sentido além do contrato e que possa ser carregado para onde ela for depois.
O processo terapêutico com esse perfil costuma endereçar também o que fica postergado: os projetos que estão esperando pelo momento em que o provisório acabar, as escolhas que foram evitadas porque exigiriam um grau de comprometimento incompatível com a lógica do contrato, e o quanto da identidade foi sendo organizado em torno da função de expatriado eficiente em vez de em torno do que a pessoa de fato quer construir ao longo da vida. Esse trabalho não apaga os anos aqui: reconhece o que eles foram e abre espaço para o que vem depois.
Terapia online para brasileiros em Dubai: atendimento em português
Para quem está em Deira, Abu Dhabi ou em qualquer parte dos Emirados
O atendimento da Cognicom Global é online, em português, disponível para brasileiros em Dubai e em todos os emirados. Para quem está na fase de não saber o que fica, o formato online tem a vantagem de acompanhar a pessoa independente de onde o próximo contrato leve: o processo não precisa ser interrompido por uma mudança de emirado ou de país.
Fuso e horários
Dubai (GST) fica entre 7 e 9 horas à frente do Brasil. Sessões no início da manhã ou no início da noite de Dubai costumam encontrar janelas compatíveis com o horário comercial ou noturno no Brasil. A Cognicom trabalha para encaixar dentro do que o calendário de cada pessoa permite. O atendimento é particular, cobrado em reais, sem cobertura de planos dos Emirados.
Avaliação inicial
O ponto de entrada é uma avaliação clínica inicial sem compromisso de continuidade. Para quem não sabe ao certo o que está sentindo mas sabe que há algo que precisa de espaço, essa conversa inicial é o lugar onde a nomeação pode começar.
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