Aconteceu primeiro com as músicas.
Ela sempre havia cantado em português para ele antes de dormir, as mesmas músicas que a avó havia cantado para ela. E por um tempo funcionou: o menino dormia com essas músicas, aprendia as palavras, repetia os refrões com o sotaque que ainda não tinha o R certo do português brasileiro.
Depois, na creche em Montreal, o inglês foi chegando. E o inglês é mais rápido, mais colorido, com personagens que os amigos conhecem, com as músicas dos desenhos que passam no iPad. E num dia, enquanto ela cantava, ele pediu, de forma completamente natural, a música do Moana. Em inglês. E continuou pedindo todas as noites seguintes.
Ela continuou cantando em português. Mas alguma coisa havia mudado, e ela sabia que havia mudado, mesmo sem conseguir nomear exatamente o que era.
Aos quatro anos, ele entende português com facilidade. Responde em inglês. Quando ela insiste em português, ele responde em português, mas com menos prazer, com a paciência que uma criança tem com uma coisa que não é a mais fácil. E quando a avó liga do Brasil, ele fica na ligação por três minutos antes de ir brincar, porque a avó não fala inglês e o inglês já é onde ele habita com mais naturalidade.
O que está acontecendo com o idioma
Bilinguismo simultâneo, que acontece quando uma criança é exposta a dois idiomas desde o nascimento, é um processo natural e documentado. O que frequentemente causa angústia nos pais brasileiros no exterior não é o bilinguismo em si, que é um recurso valioso, mas a hierarquia que emerge entre os dois idiomas com o tempo.
Quando o idioma da escola, dos amigos, da televisão, dos jogos, e de toda a vida social da criança é o inglês ou o francês ou o holandês, e o português é o idioma de casa com os pais, o idioma dominante quase inevitavelmente se torna o idioma do mundo exterior. A criança pensa com mais velocidade no idioma em que pensa mais, sonha no idioma em que sonha mais, e encontra com mais facilidade as palavras para o que quer expressar no idioma em que tem mais prática.
Isso não significa que o português vai se perder necessariamente. Com consistência e intenção, é possível manter um nível de português funcional e até fluente. Mas exige esforço deliberado que o inglês não exige, e há fases, especialmente em torno dos quatro a seis anos, em que a pressão do idioma da escola é mais forte do que em outras.
O que está sendo sentido, além do que parece
Quando a mãe ou o pai brasileiros relatam angústia com o fato de o filho responder em inglês, a angústia raramente é só sobre o idioma.
O idioma é o que está visível. O que está por baixo é frequentemente uma questão de transmissão cultural e de pertencimento. A língua portuguesa é o veículo de uma série de coisas que os pais querem passar: histórias, músicas, formas de ser, uma relação com os avós e os tios que só existe em português, uma identidade que foi formada naquele idioma e que o filho, por estar crescendo em outro contexto, pode não herdar da mesma forma.
Há também uma questão de conexão. A criança que responde em inglês quando a mãe fala português cria uma assimetria na relação que a mãe sente de forma visceral: ela fala no idioma mais profundo que tem, e a criança responde de um lugar que é mais superficial para ela, mais da superfície. Não é rejeição. É simplesmente que o filho foi para onde a vida o levou. Mas sente como distância.
E há, mais fundo ainda, uma questão de identidade da própria mãe. Quando o filho não vai crescer falando português como língua de dentro, não vai ter o mesmo acesso às músicas, às histórias, à forma de humor que existe só em português, o que isso significa para a parte do projeto de vida que era “criar meu filho como brasileiro”? Esse aspecto raramente é nomeado porque parece egoísta, mas é real e merece espaço.
O que ajuda, de fato
A pesquisa sobre manutenção de idioma herança, que é o português para filhos de brasileiros no exterior, aponta algumas práticas com evidência de eficácia.
A mais consistente é a regra de um idioma por contexto: um dos pais sempre fala português com a criança, independentemente do idioma em que a criança responde. A criança entende e processa no idioma do pai ou da mãe, e ao longo do tempo mantém acesso à língua mesmo que a produção ativa seja menor. Exige consistência, não perfeição.
A segunda é criar contextos em que o português é o idioma do prazer, não apenas da obrigação doméstica. Livros em português que a criança gosta. Música que ela escolhe e que existe em português. Conexão com primos e avós no Brasil de forma regular e agradável, não apenas em datas. O português que é associado a afeto e diversão compete melhor com o inglês do que o português que é associado a “faz isso porque é importante”.
A terceira, que é a menos intuitiva, é soltar um pouco. A criança que sente a angústia do pai ou da mãe em torno do idioma pode associar o português a conflito ou a frustração, o que não ajuda a manter o idioma. Há pais que chegam a um equilíbrio mais funcional quando param de insistir no português como exigência e passam a oferecer como convite.
Como a TCC trabalha com esse estado
A angústia que a situação produz nos pais tem um componente que é sobre a criança e um componente que é sobre os próprios pais, e os dois precisam de atenção.
O componente sobre a criança é manejado com informação: o bilinguismo é um processo com trajetória, não uma perda irreversível, e há estratégias com evidência que podem ser adotadas de forma mais ou menos intensa conforme o que faz sentido para aquela família.
O componente sobre os próprios pais é mais delicado. As crenças que emergem quando o filho responde em inglês, como “estou falhando como pai/mãe brasileiro/a”, “ele vai crescer sem saber de onde veio”, “a relação com os avós vai ser superficial”, merecem ser examinadas com a seriedade que têm. Parte delas corresponde a preocupações legítimas que têm respostas práticas. Parte é amplificação de uma situação difícil por um estado emocional que já está carregado pela complexidade de criar filhos num país estrangeiro sem rede de suporte próxima.
Criar filhos no exterior, sem os avós por perto, sem a vizinhança familiar, sem o contexto cultural compartilhado, é um trabalho que exige mais do que criar filhos no Brasil. Reconhecer esse custo, sem culpa e sem minimização, é parte do trabalho terapêutico.
O idioma da maternidade
Há uma coisa específica sobre criar filhos num segundo idioma que merece ser nomeada: a maternidade ou paternidade acontece no idioma em que o amor é mais fundo.
O que se diz para uma criança que está doente às três da manhã, o que se murmura quando ela adormece no colo, o que se faz quando ela cai e chora, tudo isso acontece em português. E o filho vai crescer com essa camada do português gravada de uma forma que nenhuma escola e nenhum iPad vai apagar completamente.
Psicoterapia em português, para um pai ou uma mãe que está atravessando a complexidade de criar filhos no exterior, é um espaço onde a maternidade pode ser descrita no idioma em que é vivida. Onde a angústia do filho que responde em inglês pode ser examinada com a textura que tem, sem precisar ser comprimida numa explicação que caiba numa conversa de WhatsApp com a mãe no Brasil.
Uma avaliação clínica pode ser o espaço onde essa angústia encontra acolhimento com a dimensão que tem, e onde a questão do idioma pode ser olhada com mais perspectiva do que é possível numa noite em que o filho pediu a música do Moana pela décima vez.