Brasileiros no Exterior

A saudade que ninguém ao meu redor entende

PKPaula Karam·9 de julho de 2026·12 min de leitura

Num jantar com colegas de trabalho em Lisboa, alguém perguntou o que era saudade. A pergunta veio assim, levemente, porque alguém tinha lido a palavra numa placa decorativa num restaurante e queria saber. E a pessoa que estava sendo perguntada, brasileira há dois anos em Portugal, abriu a boca para responder e percebeu que não sabia como. Não porque não soubesse o que era saudade. Sabia com uma precisão que dispensava pensamento. Era o que sentia quando passava pelo mercado e encontrava um cheiro que não havia encontrado desde o Brasil. Era o que chegava tarde da noite quando alguém postava uma foto de um almoço de família do qual ela não havia participado. Era o peso específico de estar num país que fala a mesma língua e ainda assim sentir que está a uma distância que o idioma não consegue medir.

Mas a explicação que a situação pedia era outra: rápida, clara, que coubesse num jantar. E essa explicação ela não tinha. Saudade não é uma palavra. É uma postura diante do tempo e da ausência. E em Portugal, explicar saudade é especialmente complicado, porque os portugueses também têm a palavra. Só que a saudade portuguesa e a saudade brasileira não são exatamente a mesma coisa. E essa diferença é mais uma das que só aparecem depois de estar aqui, depois de alguns meses vivendo numa cidade que fala português mas que não é o Brasil.

O que significa ter uma palavra que o outro também usa, mas não da mesma forma

A saudade em Portugal tem uma genealogia específica. Ela está no fado, nos azulejos, na ideia de que a melancolia é parte do temperamento nacional. É uma saudade que foi estetizada ao longo de séculos, transformada em arte e em identidade cultural. Quando o português fala em saudade, frequentemente está falando de uma disposição para a memória e para a perda que é parte de como a cultura se entende a si mesma.

A saudade da brasileira que está em Lisboa é outra coisa. É a saudade de eventos específicos que aconteceram sem ela. É a saudade do aniversário da sobrinha que ela viu pelo celular, em tempo real mas de longe. É a saudade da conversa com a mãe na terça-feira à noite, onde ficou sabendo que a amiga de infância está grávida, e essa notícia chegou por mensagem em vez de pessoalmente. É a saudade de estar num lugar onde as pessoas ao redor compartilham as mesmas referências sem que ela precise explicar nada.

Quando ela tenta descrever isso para alguém em Lisboa, o interlocutor entende a palavra mas não compreende a experiência. A palavra é a mesma, o peso é diferente. E essa diferença é difícil de articular sem parecer que está diminuindo a saudade do outro, o que não é a intenção. A intenção é apenas explicar que estar longe do Brasil na semana em que sua cidade natal ficou debaixo d’água, e ver tudo pelas redes sociais, é uma experiência específica que não tem nome mesmo quando há uma palavra disponível.

A armadilha do idioma em comum

Uma das coisas que a brasileira em Portugal descobre relativamente cedo é que o idioma em comum é uma bênção logística e uma armadilha emocional. É uma bênção porque formulários, contratos, conversas com vizinhos, instruções de aparelhos, menus, noticiário: tudo acontece numa língua que ela já domina. Isso elimina uma camada inteira de dificuldade que existe para quem vai para a Alemanha ou para o Japão.

A armadilha é que, porque o idioma está resolvido, todo mundo ao redor espera que a adaptação também esteja. “Você já fala a língua, deve ser fácil.” Essa frase, dita com boa intenção, cancela a possibilidade de dizer que não está sendo fácil. Porque se o idioma era o único obstáculo, e o idioma está resolvido, então o que resta? Se a pessoa ainda está com dificuldade, a conclusão implícita é que o problema é dela.

Mas a adaptação cultural não é o idioma. É o ritmo das interações, a forma como as pessoas marcam presença, o que significa estar perto de alguém, o humor que funciona, a ironia que passa e a que não passa, as referências que ficam no ar. Em Portugal, as regras para tudo isso são diferentes das do Brasil, e o idioma compartilhado não as traduz automaticamente. O que acontece é que a brasileira que está em Lisboa percebe as diferenças culturais com mais nitidez justamente porque o idioma não é uma barreira. As nuances ficam expostas e precisam ser processadas uma a uma.

Em Alfama ou no Intendente, em bairros onde o fluxo de brasileiros é maior, é possível construir uma rotina em que essas diferenças ficam mais suaves. Mas quando a integração acontece em contextos mistos, no trabalho com colegas portugueses, em ambientes onde ela não é só mais uma brasileira mas a única, a diferença cultural aparece em cada interação e raramente tem nome disponível para ser nomeada.

A saudade que Portugal não consegue responder

Portugal oferece uma proximidade que parece conforto. O idioma, como já foi dito. Mas também os ingredientes na cozinha que se parecem com os do Brasil, a fruta que é parecida mesmo que não idêntica, o sol que no verão lembra alguma coisa, o temperamento latino que de longe parece familiar. É uma proximidade suficiente para criar a expectativa de que a saudade vai ser menor aqui do que seria em outro lugar.

O que a brasileira descobre é que a saudade não é menor. É diferente. E, em alguns aspectos, mais confusa. Quando a distância é total, quando o país é completamente outro em todos os aspectos, a saudade tem uma forma clara: é a ausência do que é familiar num ambiente que é inteiramente estrangeiro. Em Portugal, a saudade convive com a presença de coisas parecidas o suficiente para criar uma expectativa de pertencimento que não se concretiza. O supermercado tem produtos que lembram o Brasil mas não são os do Brasil. A língua é a mesma mas com vocabulário diferente, entonação diferente, referências diferentes.

Essa saudade de algo que está próximo mas não é o que parece é especialmente difícil de nomear e, portanto, de trabalhar. É difícil dizer “estou com saudade” quando está num país que fala português e que em muitos aspectos parece familiar. A explicação para as pessoas ao redor não existe de forma simples, e a explicação para si mesma também precisa ser encontrada aos poucos.

A comunidade brasileira em Lisboa: o que resolve e o que não resolve

Lisboa tem uma comunidade brasileira significativa, concentrada em bairros como Martim Moniz, Intendente, Amadora e Odivelas. Essa comunidade oferece coisas concretas: os produtos que não estão nos supermercados portugueses, os restaurantes com comida que é de fato brasileira, o sotaque que não precisa de ajuste, as referências que ficam no ar sem que seja necessário explicar o contexto.

E oferece algo mais difícil de quantificar: a sensação de não precisar traduzir a si mesma por algumas horas. De estar num ambiente onde a brasilidade não é uma peculiaridade a ser explicada mas o padrão. Isso tem um valor real num cotidiano em que a diferença cultural é constante.

Mas a comunidade brasileira em Lisboa também tem limitações que é importante reconhecer. Ela pode se tornar uma bolha que oferece conforto sem resolver o desconforto de fundo. Pode criar uma situação em que a pessoa está em Portugal mas vive num circuito brasileiro que reproduz muitos dos padrões do Brasil sem os vínculos reais que os padrões brasileiros pressupõem. E pode adiar, indefinidamente, a questão de se está realmente adaptando a Portugal ou apenas sobrevivendo numa versão reduzida do Brasil dentro de Lisboa.

Isso não é crítica à comunidade. É apenas o reconhecimento de que ela resolve parte do problema e deixa outra parte sem solução. A saudade do Brasil específico, das pessoas específicas, dos momentos específicos que continuam acontecendo sem ela, essa saudade a comunidade brasileira em Lisboa não resolve. Ela oferece alívio temporário, que tem valor. Mas o alívio temporário não é o mesmo que integração, e a diferença entre os dois fica mais clara com o tempo.

Quando a comunidade está presente e a saudade não passa

Há um momento específico que muitas brasileiras em Lisboa descrevem de formas parecidas: o jantar com outras brasileiras foi bom, a conversa foi real, e na manhã seguinte a sensação estava lá de novo. Esse momento tende a gerar confusão se eu estava bem ontem, por que voltou? O que esse ciclo costuma revelar é que a saudade que não passa com companhia geralmente não é saudade de lugar. É de uma forma de existir que ficou no Brasil, de uma versão de si mesma que não viajou junto. A comunidade resolve o isolamento social. Não resolve o que fica quando a pessoa fica sozinha consigo mesma.

Psicólogo para brasileiros em Portugal: quando a saudade não passa com o tempo

Há uma expectativa de que a saudade diminui com o tempo. De que, à medida que a pessoa se adapta ao novo lugar, o peso da ausência do antigo vai ficando mais leve. Isso acontece para muita gente, e acontece de formas reais: a rotina se estabelece, os vínculos locais se aprofundam, o novo lugar vai ganhando familiaridade e, com ela, algum sentido de pertencimento.

Mas há casos em que a saudade não diminui dessa forma. Em que, depois de um, dois, três anos em Portugal, o peso da ausência do Brasil não fica menor mas muda de forma: deixa de ser aguda e se torna crônica. A pessoa funciona, mantém a rotina, vai ao trabalho, tem conversas. Mas carrega um peso que não consegue nomear com precisão e que não sabe como trabalhar. O que ela sente não é tristeza o tempo todo, mas é uma dificuldade de estar plenamente no presente em que está, em Lisboa, na vida que construiu aqui.

Quando a saudade se torna crônica dessa forma, ela começa a produzir padrões que têm impacto na vida cotidiana: dificuldade de investir em vínculos locais porque “pode voltar ao Brasil a qualquer momento”, dificuldade de tomar decisões sobre ficar ou voltar porque nenhuma das opções parece completa, dificuldade de sentir que a vida atual vale a pena ser habitada plenamente enquanto a vida que ficou no Brasil continua acontecendo.

O atendimento clínico com pessoas nesse contexto começa frequentemente por identificar o que exatamente a saudade está mobilizando. Não é uma palavra, como já foi dito. É um conjunto de ausências específicas que precisam ser nomeadas para que possam ser trabalhadas. A TCC oferece ferramentas para trabalhar com os padrões de pensamento que a saudade crônica produz: a ruminação sobre o que está perdendo por estar aqui, a comparação entre a vida atual e a vida imaginada que teria se tivesse ficado no Brasil, a dificuldade de estar presente no que está disponível agora.

Trabalhar esses padrões não elimina a saudade, porque a saudade tem fundamento real: há pessoas e lugares que estão ausentes. Mas cria condições para que a pessoa possa habitar sua vida em Portugal com mais presença, sem que a saudade do Brasil cancele a possibilidade de estar aqui de forma plena.

Terapia online para brasileiros em Lisboa: atendimento em português

Para quem está em Lisboa, em Cascais ou em qualquer cidade de Portugal

Sessões e fuso horário

O atendimento é por videochamada e funciona para quem está em Lisboa, em Cascais, em Sintra ou em qualquer cidade de Portugal. O fuso em relação ao Brasil varia entre três e quatro horas, o que permite sessões de manhã ou início da tarde sem comprometer o trabalho. Não há deslocamento nem recepção nem necessidade de explicar o que é estar no exterior para alguém que nunca esteve.

Como começa o atendimento

O primeiro passo é uma conversa de avaliação não para classificar, mas para entender o que está acontecendo. A Paula Karam atende brasileiras que estão em Portugal e que já tentaram de tudo: a comunidade, as viagens de fim de semana, o trabalho mais intenso. O atendimento é em português, com quem conhece o que essa experiência significa por dentro.

O atendimento online em português funciona de qualquer cidade de Portugal: Lisboa, Porto, Amadora, Setúbal, Braga, Faro. Para quem já tem uma rotina construída e não quer ou não pode adicionar um deslocamento, o atendimento online elimina essa variável.

O fuso horário de Portugal é favorável para o atendimento com profissional brasileiro. Portugal fica três a quatro horas à frente de Brasília, dependendo do horário de verão. Sessões no período da tarde em Portugal, entre 17h e 19h, correspondem a 13h a 15h no Brasil, um horário compatível com a maioria das agendas clínicas.

O atendimento com profissional brasileiro não é coberto pelo Serviço Nacional de Saúde português nem por planos de saúde locais. Acontece em modelo particular, com valor cobrado em reais. Para quem está planejando esse custo, vale considerar que a avaliação inicial funciona como um primeiro passo para entender o que o processo pode oferecer antes de qualquer compromisso de longo prazo.

Para quem está em Portugal e reconhece algo na descrição da saudade que não passa, do peso que não tem nome preciso, de estar aqui sem conseguir estar completamente aqui, uma avaliação clínica oferece um ponto de partida. O atendimento é online, em português, a partir de onde você está.

Outros aspectos da experiência de quem está em Lisboa: quando o idioma parecia ser a parte mais fácil e não era e o choque de realidade depois de chegar em Lisboa preparada. Para informações sobre atendimento psicológico online, acesse a página terapia para brasileiros em Portugal.

Próximo passo

Avaliação clínica sem compromisso.
Online, em português.

A primeira sessão é de avaliação — não de terapia. Ao final você tem uma formulação do seu quadro e um plano proposto. Você decide se continua.

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