O post tinha quarenta e sete curtidas.
Uma foto num café em Amsterdã, luz da tarde entrando pela janela, uma xícara de cappuccino e um livro na mesa. “Sunday mood,” dizia a legenda, com dois ou três emojis escolhidos com cuidado. Quarenta e sete pessoas no Brasil, ex-colegas, amigos de infância, primos, mandaram corações. “Que vida!”, comentou uma. “Invejo demais”, escreveu outra.
O que não aparecia na foto era o que tinha acontecido antes dela. Que a pessoa havia ficado na cama até o meio-dia sem conseguir se levantar com vontade de nada. Que tinha saído para o café não porque quisesse tomar café, mas porque ficar dentro do apartamento mais uma hora parecia perigoso de uma forma que não sabia nomear. Que tinha ficado sentada na mesa por quarenta minutos com o livro aberto numa página que não estava conseguindo ler. Que a foto havia sido tirada não para guardar um momento bom, mas para ter algo para postar. Para provar, para quem estava olhando, que a vida que havia sido escolhida estava fazendo sentido.
O livro continuava na mesma página quando chegou em casa.
A performance da vida perfeita no exterior
Existe uma pressão específica sobre quem mora fora do Brasil que não existe da mesma forma para quem ficou. Ela não é declarada por ninguém, não vem com manual de instruções, mas está presente de forma difusa em quase todas as interações com as pessoas que ficaram no Brasil.
A decisão de morar no exterior costuma ser percebida pelo entorno como uma conquista. Às vezes como uma aventura admirável. Às vezes como a confirmação de que a pessoa é corajosa, talentosa, diferente. Essa percepção, que pode ser lisonjeira no começo, cria com o tempo uma expectativa implícita: de que a vida que está sendo vivida lá fora corresponde à imagem que a decisão projetou.
Contradizer essa expectativa exige uma conversa que muitas pessoas não estão prontas para ter. Exige admitir que a vida em Amsterdã ou em Dublin ou em Vancouver tem domingos vazios e semanas pesadas e meses em que a dúvida sobre se valeu a pena aparece com uma regularidade que incomoda. Exige que a outra pessoa, do lado de cá da tela, revise uma narrativa em que investiu admiração, e isso nem sempre é bem-vindo. E exige da pessoa que está no exterior lidar com o que pode vir depois: a sensação de que decepcionou quem estava torcendo, ou pior, a avalanche de “então volta!” de quem interpreta dificuldade como sinal de que a escolha foi errada.
O caminho mais fácil, na ausência de uma conversa segura, é continuar postando o cappuccino.
O custo da performance
Manter uma versão curada de si mesmo para o consumo externo tem um custo que fica invisível enquanto está sendo pago, mas que acumula.
O primeiro custo é energético. Selecionar o que mostrar, construir a legenda que diz a coisa certa, calibrar a imagem que transmite exatamente o que precisa ser transmitido sem revelar o que não deve aparecer: tudo isso exige atenção e energia que poderiam estar disponíveis para outras coisas. É um trabalho, e um trabalho constante, mesmo que seja feito de forma tão automática que não pareça mais trabalho.
O segundo custo é relacional. A versão curada que circula nas redes cria uma distância real entre a pessoa e as pessoas que a acompanham à distância. Elas conhecem e investem afeto numa personagem, não na pessoa real. Quando a pessoa real precisa de suporte, abre um gap: ou conta a verdade e tem que lidar com a revisão de imagem que isso exige, ou pede ajuda de uma posição que não corresponde à narrativa que foi construída, o que torna o pedido ainda mais difícil.
O terceiro custo, o mais silencioso, é o que acontece internamente. Há uma diferença entre como a vida está sendo apresentada para o mundo e como ela está sendo vivida por dentro. Quanto maior essa diferença, mais difícil fica acreditar no próprio sofrimento. “Mas eu mesma posto que estou bem.” “Quarenta e sete pessoas curtiram.” “Se estou mal, por que a foto parece tão boa?” A performance que foi criada para o externo começa a funcionar como sabotagem do reconhecimento interno.
Quando postar é mais fácil do que pedir ajuda
A função das redes sociais para brasileiros no exterior frequentemente vai além de compartilhar. Elas funcionam como um canal de conexão com o Brasil, uma forma de permanecer presente na vida das pessoas que ficaram sem estar fisicamente presente. Isso tem valor real, e não é o problema em si.
O problema aparece quando esse canal passa a ser unidirecional e curado de uma forma que impede conexão real. Quando “estar em contato” com as pessoas do Brasil significa que elas veem as fotos e mandam corações, mas não sabem o que está acontecendo de verdade. Quando a proximidade que as redes criam é uma proximidade de superfície que deixa a solidão mais profunda intacta, e às vezes até mais intensa, porque gera a ilusão de que a necessidade de conexão está sendo atendida quando não está.
Há uma frase que aparece no consultório com variações: “Tenho tantos amigos no Instagram e não tenho com quem conversar.” Não é exagero. É a descrição precisa do que acontece quando a conectividade substitui a conexão.
O que acontece quando a diferença fica grande demais
Existe um ponto em que a distância entre a vida mostrada e a vida vivida se torna ela mesma uma fonte de sofrimento. Não apenas o estado difícil que está sendo escondido. A dificuldade de escondê-lo, o esforço crescente que isso exige, e a solidão que produz.
Quando esse ponto é atingido, há um padrão que se repete: a pessoa começa a postar menos. Não porque a vida melhorou, mas porque a performance ficou cara demais para ser mantida sem que a diferença apareça. O silêncio nas redes pode ser o sinal mais claro de que algo está errado, mais claro do que qualquer post poderia ser.
Há também o inverso: postar compulsivamente como forma de regular um estado interno difícil. Cada curtida funciona como uma pequena dose de validação que alivia momentaneamente algo que, sem tratamento, vai crescer. O alívio dura enquanto a notificação dura, e depois o estado está lá de novo.
Nenhum dos dois padrões é o problema fundamental. O problema é o estado que eles estão tentando gerenciar, e que continua existindo independentemente de quantas fotos sejam postadas ou deixadas de postar.
Como a TCC trabalha com isso
A Terapia Cognitivo-Comportamental aborda esse padrão a partir de dois ângulos.
O primeiro é examinar as crenças que tornam a performance necessária. A crença de que se as pessoas souberem que as coisas não estão bem, irão se afastar, ou irão achar que a escolha de morar fora foi errada, ou irão decepcioná-la com conselhos que não ajudam. Essas crenças raramente são verificadas, porque o comportamento de ocultar impede o teste. O trabalho cognitivo é examinar as evidências disponíveis e, onde for possível, testar com segurança o que acontece quando a versão real aparece.
O segundo ângulo é comportamental: criar canais de conexão que não dependam da curadoria. Isso pode incluir conversar com uma ou duas pessoas de confiança com mais honestidade sobre como as coisas estão, mesmo que seja desconfortável no início. Pode incluir reduzir o tempo gasto em redes sociais e aumentar o tempo em interações que permitem reciprocidade real. Pode incluir, em alguns casos, uma pausa deliberada nas redes para observar o que o uso estava regulando e o que fica quando essa regulação não está disponível.
Essa última descoberta, o que fica quando a performance para, costuma ser o ponto de entrada para o trabalho mais profundo. Porque o que fica é o estado real, e o estado real é o que pode ser tratado.
O espaço onde a performance não é necessária
Uma das coisas que o atendimento em psicoterapia oferece, que é difícil de encontrar em outro contexto, é um espaço onde não há nada a performar. Não há imagem a manter, não há expectativa a corresponder, não há narrativa já construída que precise ser preservada.
Isso tem um valor particular para quem passou tempo investindo energia considerável em mostrar que está bem. A possibilidade de dizer, sem curadoria, o que está acontecendo de verdade, e ser recebida por alguém que está ouvindo para entender e não para confirmar o que já esperava ouvir, pode ser a primeira experiência real de conexão depois de um período longo de performance.
O atendimento em português adiciona uma camada: é possível falar na língua em que o estado real existe, sem a tradução que a performance para o externo muitas vezes já exige. A versão crua do que está sendo sentido, nas palavras que chegam antes da edição, é a que tem mais acesso ao que precisa ser trabalhado.
Uma avaliação clínica pode ser o espaço onde a foto finalmente não precisa ficar boa.