Havia uma pausa específica que ela havia aprendido a reconhecer.
Era a pausa que vinha depois que ela dizia de onde era. Uma fração de segundo em que o interlocutor processava a informação, e dentro da qual ela havia aprendido a ler muita coisa. A maioria das pessoas era genuinamente curiosa, ou educada, ou ambas as coisas. Mas havia uma porcentagem, que ela estimava mentalmente nas reuniões e eventos de networking, onde a pausa carregava algo diferente. Uma reavaliação rápida. Uma série de associações automáticas sobre o Brasil que ela não havia produzido e que tinha pouco a ver com quem ela era.
Com o tempo, ela havia começado a adicionar informações ao “sou do Brasil” antes que a pausa chegasse: a cidade, o contexto, o que fazia no Brasil antes de vir, qualquer coisa que substituísse o espaço em branco que o Brasil ocupava no imaginário de muita gente pelo que ela de fato era. E num ponto ela percebeu o que estava fazendo: estava se desassociando do Brasil antes que alguém pudesse associá-la ao que o Brasil significava para eles.
O que é vergonha de identidade nacional
A vergonha da identidade nacional é diferente da vergonha pessoal. Não é a sensação de ter feito algo errado. É a sensação de carregar um marcador de identidade, a nacionalidade, que em determinados contextos é processado pelos outros como indicativo de algo negativo que a pessoa não escolheu e com o qual pode não se identificar.
Isso pode acontecer por várias razões, e é importante distinguir entre elas porque apontam para trabalhos terapêuticos diferentes.
A primeira razão é contextual: o Brasil ocupa um lugar específico no imaginário internacional que combina admiração com associações problemáticas. Dependendo de quem está do outro lado da conversa, “sou do Brasil” pode ativar associações com carnaval e futebol, com pobreza e violência, com corrupção política, com a Amazônia e o desmatamento, com um lugar exótico e distante de qualquer seriedade. Nenhuma dessas associações representa a pessoa que está na conversa, mas são o contexto em que ela precisa se posicionar todas as vezes que sua origem é mencionada.
A segunda razão é política: quando o Brasil passa por períodos de turbulência política visível internacionalmente, a associação entre “ser brasileiro” e posições políticas específicas que a pessoa pode não compartilhar cria um desconforto adicional. Ser associada ao que está acontecendo no país de origem, sem ter escolhido esse enquadramento, gera uma forma específica de vergonha que é mais sobre injustiça do que sobre identidade.
A terceira razão é mais interna: ao longo de anos no exterior, especialmente em ambientes onde a comparação com o Brasil é frequente e desfavorável em certas dimensões, pode desenvolver-se uma internalização dessas avaliações. A pessoa que começou com orgulho claro de suas origens começa a construir uma relação mais ambivalente com elas, até que a vergonha que era situacional e específica começa a parecer parte do que sente quando pensa no Brasil.
O que a vergonha faz com a identidade
A vergonha de identidade nacional, quando sustentada por tempo suficiente, tem efeitos que vão além do desconforto nas conversas.
Ela produz um afastamento progressivo das partes da identidade que estão associadas à origem. A pessoa que tinha vergonha de dizer que era brasileira pode começar a ter vergonha de preferências, gostos, formas de ser que reconhece como brasileiras. O afeto físico que é natural entre brasileiros pode ser inibido porque parece excessivo no contexto local. A forma de comer, a música que ouve, as formas de socialização que aprendeu no Brasil podem ir sendo suprimidas porque se tornam parte do que está sendo envergonhado.
Há também um efeito sobre as relações com outros brasileiros no exterior. Em alguns casos, a vergonha da identidade nacional produz um distanciamento de compatriotas, como se a companhia de outros brasileiros amplificasse o marcador de identidade que a pessoa está tentando reduzir. Isso cria um isolamento específico: a rede de suporte mais natural para quem está no exterior, que são outros que passam pelas mesmas experiências, é justamente de quem a pessoa se afasta.
O que está por baixo da vergonha
A vergonha raramente é o estado mais fundo. Abaixo dela, geralmente, há outras coisas.
Pode haver raiva. A raiva de ter que explicar e reexplicar o que é o Brasil e quem são os brasileiros, de ter que carregar o peso de um imaginário que foi construído sem a participação de ninguém que está naquela conversa, de ter que trabalhar mais para ser vista como competente ou inteligente ou séria porque o passaporte cria uma presunção prévia.
Pode haver tristeza. A tristeza de não poder ser simplesmente de onde se é, de ter que gerenciar constantemente o que significa ser daquele lugar, de sentir que a identidade nacional que tinha antes de sair era mais leve do que a que carrega agora que está fora.
Pode haver ambivalência genuína. Não toda a vergonha é injusta ou infundada. Há aspectos do Brasil que produzem ambivalência real: o que está acontecendo politicamente, o que está acontecendo com o meio ambiente, o que está acontecendo com pessoas específicas que ficaram. E essa ambivalência merece ser examinada com cuidado, separando o que é desacordo genuíno com aspectos do país do que é vergonha de si mesma por extensão.
Como a TCC trabalha com isso
O trabalho terapêutico começa por separar o que está sendo sentido: vergonha situacional específica de contextos concretos, vergonha internalizada que operou por tempo suficiente para parecer parte da identidade, raiva disfarçada de vergonha, tristeza não nomeada, ambivalência genuína sobre aspectos específicos do Brasil.
Cada um desses estados aponta para um trabalho diferente.
A vergonha situacional pode ser trabalhada com estratégias de reformulação cognitiva: o que de fato está sendo avaliado quando a pessoa diz de onde é? A evidência sustenta que essa avaliação é inevitável? Há formas de se apresentar que criam contexto sem que isso precise ser vivido como auto-defesa?
A vergonha internalizada é mais complexa e requer examinar quando e como as avaliações externas foram aceitas como verdades sobre si mesma. Esse trabalho é delicado porque envolve distinguir o que é crítica legítima de aspectos específicos do que é generalização que colou em identidade.
A raiva que está por baixo da vergonha muitas vezes só pode ser trabalhada depois de ser nomeada. E nomear raiva em terapia, especialmente raiva sobre algo que parece pequeno, como ter que explicar de onde você é, pode ser o acesso a algo que está consumindo energia há anos sem nunca ter sido dito em voz alta.
Sobre o Brasil que existe dentro
Há uma distinção que vale fazer: o Brasil que está sendo carregado como vergonha não é o mesmo que o Brasil que formou quem a pessoa é.
O Brasil das manchetes internacionais, das associações automáticas, da pausa que vem depois que se diz de onde é, esse é o Brasil do imaginário de outros. Tem pouco a ver com o Brasil do primeiro apartamento, da avó que cozinhava, das amizades que duraram décadas, da paisagem que o corpo ainda reconhece de memória.
Psicoterapia em português é o espaço onde o Brasil que é lembrado pode ser descrito como é, sem ter que ser explicado ou contextualizado para quem está do outro lado. Onde a ambivalência sobre o país pode ter a complexidade que tem, sem se transformar em vergonha nem em defesa irrefletida.
Uma avaliação clínica pode ser o lugar onde a pessoa descobre o que de fato sente sobre de onde vem, separado do que aprendeu a sentir por pressão de contextos que não conheciam o Brasil que ela conhece.