No começo parecia simpático.
“The Brazilian” era como os colegas do escritório em Toronto a chamavam quando ela não estava por perto, e às vezes quando estava. Havia carinho no apelido, havia um tipo de afeto despreocupado que ela reconhecia como parte da cultura local: reduzir alguém a uma característica saliente como forma de integração, não de exclusão. Ela havia rido das primeiras vezes. Havia adotado o apelido, até, naquele período inicial em que parecia melhor pertencer pela categoria do que não pertencer de nenhuma forma.
Dois anos depois, numa conversa de corredor sobre alguma notícia do Brasil, um colega havia se virado para ela com a convicção de quem consulta um especialista: “You know about this — you’re the Brazilian.” E ela havia respondido o que sabia, porque sabia, e a conversa havia passado para outro assunto. Mas algo havia ficado.
Ela havia ficado pensando depois: o que exatamente é assumido quando alguém diz “you’re the Brazilian”? Que ela conhece tudo sobre o Brasil, que compartilha as opiniões de todos os brasileiros, que o Brasil é o referencial mais relevante de quem ela é, que sua perspectiva sobre qualquer assunto é mediada pela brazilianidade que a define para eles. Nada disso estava errado de forma completa. E nada disso estava certo de forma que ela se reconhecesse.
O que acontece quando a identidade vira categoria
Há uma diferença entre ser brasileiro e ser “o brasileiro” num determinado contexto.
Ser brasileiro é uma das muitas dimensões de quem alguém é: inclui de onde veio, em que idioma pensou primeiro, que referências culturais carrega, que história está inscrita no corpo. É uma dimensão rica, complexa, que contém contradições e que coexiste com outras dimensões igualmente ricas.
Ser “o brasileiro” num ambiente de trabalho em Toronto é outra coisa. É ser a referência de uma categoria que o grupo usa para localizar uma parte do que não conhece. É funcionar como representante de uma identidade que nunca foi pedida e que reduz tudo que a pessoa é a um eixo único. É uma forma de visibilidade que, ao contrário do que parece, frequentemente produz a mesma solidão que a invisibilidade produz, por uma razão diferente: a pessoa é vista, mas o que é visto não é ela.
Isso acontece com muitas minorias culturais em ambientes majoritários: a pessoa vira a embaixadora, a especialista, a representante de um lugar ou grupo que o ambiente não conhece de outra forma. E o custo é que o que é visto e endereçado é sempre a categoria, não a pessoa dentro dela.
A solidão específica de ser reduzida a uma origem
A solidão de ser “the Brazilian” é diferente da solidão de não ser vista. É mais sutil e, por isso, mais difícil de nomear.
A pessoa que não é vista pode nomear a ausência. A pessoa que é vista como categoria recebe atenção, perguntas, às vezes admiração. E ainda assim há algo ausente: o tipo de conhecimento que só acontece quando alguém quer saber não de onde você veio mas quem você é. A pergunta “o que você acha desse filme?” sem o subentendido “do ponto de vista de alguém que é do Brasil”. A conversa que acontece entre quem se conhece, não entre quem representa categorias distintas.
Com o tempo, a redução a uma origem produz um efeito específico: a pessoa começa a antecipar que qualquer coisa que diz vai ser processada pelo filtro da categoria. O que pensa sobre política vai ser lido como “o que os brasileiros pensam sobre política”. O que sente sobre o trabalho vai ser lido através da lente de “mas para alguém que veio do Brasil, isso deve ser diferente”. Esse filtro cria uma distância entre quem fala e quem ouve que não é hostil mas que é consistente, e que ao longo do tempo produz o mesmo efeito do isolamento.
O que isso produz internamente
Há um processo que acontece com o tempo quando a identidade de origem é consistentemente o referencial mais saliente no ambiente: a pessoa começa a desenvolver uma relação diferente com essa identidade.
Pode ser de hiperidentificação: a pessoa abraça a categoria porque é a que tem reconhecimento no contexto, amplifica os aspectos que o ambiente espera e reduz os que não se encaixam no estereótipo. Torna-se “mais brasileira” do que seria em outro contexto, não por escolha mas por resposta ao que é solicitado.
Pode ser de rejeição: a pessoa resiste ativamente à categoria, evita mencionar o Brasil, trabalha para não ser lida como “the Brazilian”, desenvolve a vergonha de identidade que o artigo anterior descreveu.
Pode ser de ambivalência: a pessoa oscila entre as duas posições dependendo do dia, do contexto, de quanto está exausta de gerenciar o que significa ser de onde é.
Nenhuma dessas respostas é patológica. São respostas adaptativas a uma situação que tem um custo real. O que merece atenção é quando qualquer dessas respostas começa a estreitar o espaço disponível para ser quem se é.
O que a identidade é, de fato
A identidade não é uma categoria. É um processo contínuo de composição que inclui origem, mas também experiência, escolha, relação, tempo.
Quem viveu anos no exterior é alguém que carrega o Brasil e também carrega Toronto, ou Londres, ou Amsterdã. Que fala português e também pensa em inglês em certas situações. Que tem referências de dois ou mais contextos que às vezes se integram e às vezes ficam em tensão. Que não é completamente de nenhum dos dois lugares e é, de alguma forma, dos dois simultaneamente.
Essa identidade composta não é fácil de carregar num contexto que prefere categorias simples. Mas é a identidade que existe, e a tentativa de comprimi-la numa categoria para facilitar o consumo pelo ambiente tem um custo que vai se acumulando.
Como a TCC trabalha com isso
O trabalho começa por nomear o que está acontecendo: a redução a uma categoria, o custo dessa redução, o que foi perdido e o que foi produzido pelo processo de ser “the Brazilian” por dois anos.
O trabalho cognitivo examina a crença de que a categoria é inevitável e que não há alternativa. Há formas de se apresentar que criam espaço para mais dimensões sem que isso precise ser confrontacional. Há formas de responder à pergunta “o que você acha disso, você que é do Brasil?” que expandem o enquadramento sem rejeitar a origem. Essas habilidades comunicativas não resolvem o problema estrutural, mas criam mais espaço de movimento dentro dele.
O trabalho mais profundo é sobre a relação que a pessoa tem com sua própria identidade: o que é o Brasil para ela, separado do que o Brasil é para o ambiente. O que ela quer carregar dessa origem, o que quer integrar do que viveu no exterior, quem é essa pessoa que está no ponto de encontro de dois contextos que não se sobrepõem perfeitamente.
Essa pergunta não tem resposta rápida. Mas tem resposta. E o processo de respondê-la é parte do que a psicoterapia oferece.
A pessoa que não cabe na categoria
Numa festa de fim de ano do escritório em Toronto, num momento em que os grupos de conversa haviam mudado de configuração e ela tinha ficado num pequeno grupo com dois colegas que conhecia menos, alguém havia perguntado qual seria seu filme favorito.
Ela havia respondido. E a conversa havia seguido, sobre o filme, sobre outros filmes, sobre o que cada um preferia e por que. Por quarenta minutos, havia sido simplesmente alguém com gostos e opiniões. Não “the Brazilian”.
Psicoterapia em português é o espaço onde a pessoa que está dentro da categoria pode aparecer com a complexidade que tem, sem precisar ser reduzida ao que é mais fácil de nomear para o ambiente ao redor.
Uma avaliação clínica pode ser o começo de examinar quem é essa pessoa além do apelido.