Cinco anos.
Ela havia chegado a Berlim com uma mala grande e um contrato de trabalho de um ano. O contrato havia virado dois, depois havia sido efetivado, depois havia vindo o apartamento, o gato, a namorada alemã, os amigos que passaram de colegas a pessoas com quem ela contaria. Havia construído uma vida que, se descrita por fora, parecia completa.
E ainda havia, no meio de tudo isso, uma pergunta que não havia ido embora.
Não era a mesma pergunta de quando chegou. No começo a pergunta havia sido “será que isso vai funcionar?” — a pergunta de quem está tentando ver se o projeto vai se sustentar. Depois havia mudado para “quando será que vou sentir que pertenço aqui?” — a pergunta de quem espera que o pertencimento apareça com o tempo. Agora, no quinto ano, a pergunta havia assumido uma forma mais difícil de ignorar: “esse é o lugar onde quero estar?”
O que tornava a pergunta difícil não era a resposta — a resposta não estava disponível. O que tornava difícil era não saber se a incapacidade de responder era sobre a pergunta em si ou sobre algum estado interno que estava impedindo qualquer resposta de chegar.
Por que a pergunta não vai embora
Há uma distinção útil entre duas formas de incerteza sobre onde estar.
A primeira é a incerteza de transição: acontece nos primeiros anos, quando a pessoa ainda não tem base suficiente no novo lugar para avaliar com clareza, quando a experiência é nova e a comparação com o que havia antes ainda é vívida. Essa incerteza tende a se resolver com o tempo, quando a base se consolida e a avaliação tem mais material para trabalhar.
A segunda é a incerteza crônica: acontece quando, mesmo com uma base consolidada, a pergunta sobre onde estar continua sem resposta. Não porque faltam informações, mas porque a pergunta está conectada a algo mais profundo do que a avaliação prática de qual lugar oferece o quê.
A pessoa que está em Berlim há cinco anos com uma vida construída e ainda se pergunta se é esse o lugar está, com grande probabilidade, na segunda categoria. E a pergunta que ela na verdade está fazendo não é “qual é o melhor lugar para minha vida?” mas algo mais próximo de “quem sou eu quando escolho onde quero estar?”
O que a incerteza crônica produz
A incerteza crônica sobre onde estar tem um custo específico que não é idêntico ao custo de estar no lugar errado.
Quem está num lugar que claramente não é o certo sofre por estar lá. Quem está num lugar que pode ser o certo e pode não ser sofre pela impossibilidade de saber. E esse segundo tipo de sofrimento tem uma qualidade particular: é difícil de nomear, porque não há um objeto claro (o lugar, as pessoas, o trabalho) ao qual a insatisfação possa ser atribuída. É uma insatisfação que parece não ter endereço.
Sem endereço, a insatisfação frequentemente recai sobre a própria pessoa. “Talvez seja algo em mim que não consegue estar em lugar nenhum.” “Talvez eu seja alguém que nunca vai estar satisfeito.” “Talvez a incapacidade de saber seja o problema, não o lugar.” Essas interpretações são frequentemente mais severas do que a situação merece, e têm o custo adicional de deslocar a atenção de uma pergunta que é real para uma autocrítica que não é produtiva.
O que está por baixo da pergunta
A pergunta “esse é o meu lugar?” raramente é apenas sobre o lugar.
Está conectada à pergunta sobre que vida a pessoa quer viver, que tipo de relações quer ter por perto, que papel a família de origem tem na vida que está sendo construída, que versão de si mesma quer ser. Está conectada a valores que às vezes não foram examinados de forma explícita porque nunca houve necessidade de fazê-lo antes da migração.
O processo de viver no exterior por tempo suficiente força um exame de valores que quem nunca saiu pode deixar implícitos. Quem está em Berlim há cinco anos descobre que tem posições sobre onde quer criar filhos, se quiser tê-los. Sobre que idioma quer falar em casa. Sobre que distância física da família consegue sustentar por décadas. Sobre que tipo de velhice quer ter e onde. Esses não são detalhes operacionais. São questões centrais de como a vida é estruturada, e a resposta a elas tem implicações diretas para a resposta à pergunta maior.
O problema é que examinar essas questões de forma rigorosa é trabalho. E o trabalho de examiná-las frequentemente é adiado porque as perguntas são desconfortáveis, porque as respostas implicam decisões que têm custo, e porque enquanto a incerteza se mantém nada precisa ser decidido.
A função do não-decidir
Há um mecanismo que merece atenção: a manutenção da incerteza como forma de evitar o custo da decisão.
Decidir ficar implica fechar a possibilidade de voltar, pelo menos como opção principal. Implica investir de uma forma que não seja mais provisória. Implica dizer à família no Brasil que a ausência vai continuar. Implica uma forma de luto pelo que fica para trás que ainda não foi feito.
Decidir voltar implica abrir mão do que foi construído. Implica responder à pergunta sobre se o que foi construído tem valor suficiente para ser deixado para trás. Implica enfrentar a possibilidade de que o retorno não seja o que está sendo imaginado.
Manter a incerteza suspende ambos os custos. A pessoa não precisa fazer nenhum dos lutos, não precisa enfrentar nenhuma das possibilidades. A incerteza tem esse benefício, e o custo dela, que é a exaustão de viver num estado de provisoriedade permanente, frequentemente só é reconhecido quando se acumula até um ponto que não dá mais para ignorar.
Como a TCC trabalha com a paralisia decisória
O trabalho terapêutico com a incerteza crônica sobre onde estar não começa pela decisão. Começa por examinar o que está impedindo que a decisão seja acessível.
A primeira etapa é separar o que é incerteza genuína sobre informações que faltam do que é evitação de uma decisão cujas implicações são conhecidas mas temidas. Muitas pessoas que dizem “não sei o que quero” sabem mais do que imaginam. O que não sabem é como lidar com o que sabem.
A segunda etapa é trabalhar com as crenças que tornam a decisão assustadora: “Se eu decidir ficar e mais tarde me arrepender, não vai ter como desfazer.” “Se eu voltar e não for o que esperava, vou ter abdicado de tudo que construí aqui por nada.” “Qualquer que seja a decisão, vou perder algo que não consigo recuperar.” Essas crenças são parcialmente verdadeiras, o que as torna difíceis de trabalhar. Mas a versão mais completa é: qualquer decisão implica ganhos e perdas, e a decisão que é tomada com clareza sobre o que importa é mais sustentável do que a não-decisão perpétua.
A terceira etapa é examinar os valores que estão por trás da pergunta, não para impor uma resposta, mas para que a pessoa tenha mais contato com o que de fato importa para ela antes de decidir.
Sobre o quinto aniversário
No quinto aniversário de Berlim, ela havia saído para jantar sozinha, um ritual que havia criado para si mesma nos primeiros anos e que havia mantido. Havia pedido o que gostava, havia bebido um vinho que era bom, havia ficado um tempo olhando pela janela para a rua berlinense que conhecia de cor.
E havia pensado que a pergunta ainda estava lá. E também que havia, no quinto aniversário, coisas que não estavam no primeiro: o gato que estaria esperando em casa. A namorada que ia ligar às dez. Os amigos com quem ia tomar café no domingo. A vida que havia se construído enquanto a pergunta continuava em aberto.
A pergunta não havia ido embora. Mas talvez precisasse de um espaço diferente para ser respondida do que um jantar sozinha no quinto aniversário.
Psicoterapia em português pode ser esse espaço. Onde a pergunta pode ser examinada com rigor, onde o que está por baixo dela pode emergir, onde a decisão que vier pode ser tomada de um lugar que é mais parecido com clareza do que com exaustão.
Uma avaliação clínica pode ser o começo desse processo.