Brasileiros no Exterior

Vivo entre dois mundos e não me sinto inteira em nenhum dos dois

PKPaula Karam·9 de julho de 2026·7 min de leitura

Na última vez que foi ao Brasil, sua prima havia dito algo que ficou.

Não havia sido dito com crueldade — havia sido dito com a naturalidade de quem observa algo óbvio. “Você mudou”, havia dito a prima, no terceiro dia da visita, durante o almoço. “Não de um jeito ruim. Só que você não é mais bem daqui.”

Ela havia concordado, naquele momento, porque era verdade. E tinha ido embora de volta para Amsterdã com a observação da prima como companhia: não é mais bem daqui. O que não havia dito, na conversa, era que em Amsterdã ela também não era bem de lá. Que havia dois anos morando na cidade e ainda havia momentos em que a sensação de não pertencer aparecia com uma nitidez que o apartamento alugado e os amigos feitos e o trabalho que ia bem não conseguiam dissolver.

Não era solidão no sentido comum. Era algo mais específico: a sensação de estar sempre um passo fora do enquadramento. No Brasil, um passo fora por ter ido. Em Amsterdã, um passo fora por ter vindo.

O que é a experiência do terceiro espaço

Na pesquisa sobre identidade transcultural, chama-se de “terceiro espaço” ao lugar psicológico habitado por quem vive entre duas culturas de forma prolongada. Não é uma combinação das duas culturas anteriores. É algo diferente, que emerge do processo de habitar dois contextos simultaneamente sem pertencer completamente a nenhum.

O conceito, desenvolvido por teóricos como Homi Bhabha no contexto pós-colonial, descreve um espaço de negociação constante onde as identidades nunca estão fixas, onde o significado é sempre construído no entre-lugar, onde o que se é está sempre em relação com o que os dois contextos solicitam e o que a pessoa carrega de cada um.

Isso não é um problema a ser resolvido. É uma condição a ser habitada. Mas habitar esse espaço tem um custo que depende de como é vivido: com que suporte, com que consciência, com que relação a pessoa tem com a ambiguidade que ele produz.

O que o não-pertencimento produz

Há uma assimetria específica no não-pertencimento duplo: o não-pertencimento em cada um dos dois contextos é diferente em qualidade.

No Brasil, o não-pertencimento depois de anos no exterior é frequentemente invisível para quem está ao redor. A pessoa fala português sem sotaque, tem as referências culturais, reconhece os cheiros e os sabores e os ritmos sociais. A família não vê diferença. Os amigos antigos a reconhecem. E ao mesmo tempo, há uma camada de experiência que não se traduz: o que foi aprendido lá fora, as formas de pensar que foram adquiridas, as referências que não existem no vocabulário de quem não saiu. O não-pertencimento no Brasil é silencioso e solitário porque é invisível.

No exterior, o não-pertencimento é visível mas frequentemente interpretado de forma errada. O sotaque, a diferença cultural, as lacunas de referência são lidas como marcadores de que a pessoa ainda está chegando, ainda está integrando, ainda está a caminho de algum lugar que os locais já habitam. Não são interpretados como parte permanente de quem ela é. E isso cria uma expectativa, implícita, de que em algum momento o não-pertencimento vai se resolver, que em algum momento a pessoa vai chegar. Mas o “chegar” que é esperado não é o que está disponível.

Por que a questão “onde você vai ficar?” não tem resposta simples

Uma das perguntas mais frequentes que quem vive entre dois mundos recebe é alguma variação de onde você vai ficar: no exterior ou no Brasil.

A pergunta parte do pressuposto de que a resolução do não-pertencimento duplo é escolher um dos dois lados. Que se a pessoa se comprometer completamente com um lugar, o pertencimento vai se estabelecer de forma mais sólida.

Isso às vezes é verdade. Há pessoas para quem a decisão de investir completamente num dos dois contextos resolve grande parte do desconforto. Mas há pessoas para quem isso não funciona dessa forma, porque a identidade que foi formada no entre-lugar não consegue ser reduzida a um dos dois lados sem perder algo que é genuíno.

Para essas pessoas, a questão não é escolher entre o Brasil e o exterior. É encontrar formas de habitar o entre-lugar de uma forma que seja sustentável, que não exija uma renúncia que não está disponível.

O que dificulta habitar esse espaço

Há fatores que tornam o entre-lugar mais difícil de habitar.

O primeiro é a ausência de reconhecimento. Quando o não-pertencimento duplo não é nomeado, quando não há linguagem para descrevê-lo, quando as pessoas ao redor oferecem soluções que pressupõem que a questão é escolher um lado, a pessoa que habita o entre-lugar fica sozinha com uma experiência que não tem palavras no vocabulário disponível.

O segundo é a narrativa do fracasso. Em alguns contextos, o não-pertencimento duplo é lido como sinal de que a integração não foi bem-sucedida, de que a pessoa “não conseguiu se adaptar”, de que faltou comprometimento com o processo. Essa narrativa é injusta e incorreta. Mas quando é internalizada, adiciona vergonha a uma condição que já é difícil.

O terceiro é a dificuldade de sustentar a ambiguidade por tempo indefinido. O sistema nervoso humano prefere clareza. Não saber de onde se é, não ter um lugar que seja “de casa” de forma inequívoca, carregar a tensão de dois pertencimentos parciais que nunca se completam, é cognitivamente e emocionalmente custoso. E esse custo se acumula.

Como a TCC trabalha com o entre-lugar

O trabalho terapêutico com o não-pertencimento duplo começa por reconhecer que a experiência é real, que não é patologia, e que não tem uma solução que a elimine completamente.

Isso importa porque muitas pessoas chegam à terapia querendo ser “consertadas”, querendo descobrir como fazer o não-pertencimento parar. E o trabalho terapêutico honesto começa por ajudá-las a distinguir o que é um problema que tem solução do que é uma condição que tem manejo.

O que tem solução: o esgotamento de tentar pertencer completamente em ambos os contextos ao mesmo tempo, o que exige energia que não existe; a vergonha de não pertencer completamente a nenhum dos dois; o isolamento que vem de não ter com quem nomear essa experiência.

O que tem manejo: o não-pertencimento em si, que é consequência de uma trajetória que não se apaga; a ambiguidade de ser de mais de um lugar ao mesmo tempo; a tensão de carregar dois contextos que não se sobrepõem completamente.

O trabalho cognitivo explora as crenças que transformam o entre-lugar numa falha: “eu deveria ter me integrado melhor”, “eu deveria sentir que pertenço aqui a essa altura”, “o fato de ainda não pertencer completamente significa que alguma coisa está errada”. Cada uma dessas crenças pode ser examinada com rigor.

O trabalho comportamental cria formas de construir pertencimento que não dependam de exclusividade. Comunidades de brasileiros no exterior que entendem a experiência do entre-lugar. Relações que reconhecem a identidade composta sem exigir que ela se resolva. Rituais que honram os dois contextos sem precisar escolher entre eles.

Sobre o lugar que existe no meio

Há uma coisa que a prima não havia dito no almoço, e que talvez não soubesse dizer: que o lugar onde a pessoa que voltou e mudou habita não é nenhum dos dois lugares que existiam antes. É um lugar novo, específico, que só existe porque ela passou pelos dois.

Esse lugar não é confortável de uma forma que resolve. É o lugar onde duas culturas ficam em contato, onde os dois idiomas coexistem, onde o humor tem referências de Amsterdã e de onde quer que ela tenha crescido, onde saudade e nostalgia coexistem com alívio de estar aqui e com desejo de estar lá.

É um lugar difícil de habitar sozinha. E é por isso que psicoterapia em português, para alguém que está no entre-lugar, é o espaço onde esse lugar pode ser descrito com a complexidade que tem. Onde “não me sinto inteira em nenhum dos dois” pode ser ouvido não como problema a consertar mas como descrição de uma experiência real que merece acolhimento.

Uma avaliação clínica pode ser o começo de aprender a habitar esse lugar de uma forma que seja mais sustentável do que tem sido.

← Artigo anteriorTodo mundo me chama de "the Brazilian" e eu não sei se isso me definePróximo artigo →Estou aqui há cinco anos e ainda não sei se esse é o meu lugar