Brasileiros no Exterior

Vim fazer medicina no Paraguai porque era mais barato. Ninguém me falou do custo de ficar seis anos longe

PKPaula Karam·25 de outubro de 2026·12 min de leitura

Quanto custa, de verdade, um diploma de medicina feito do outro lado da fronteira?

A resposta que circula nos grupos de família é um número: a mensalidade. Em 2019, reportagem do jornal paraguaio Última Hora comparava parcelas de R$ 700 a R$ 2.000 nas faculdades da fronteira com R$ 6 mil a R$ 10 mil cobrados no Brasil. A diferença convence pais, avós e o próprio estudante. A planilha fecha, a mala é feita, e alguns meses depois aparece uma conta que ninguém colocou na planilha.

É dessa outra conta que este texto trata. Ela aparece no consultório com frases parecidas, ditas por estudantes de 19, 25 ou 40 anos que moram em Ciudad del Este ou em Pedro Juan Caballero:

“Meus pais estão se sacrificando. Eu não tenho o direito de não dar conta.”

“Se eu reprovar nessa matéria, perco o ano e jogo dinheiro fora.”

“Todo mundo aqui parece estar bem. Só eu estou assim.”

Nenhuma dessas frases é diagnóstico. São pensamentos comuns em quem carrega um projeto grande, longe de casa, com prazo de seis anos. Entender de onde eles vêm é o primeiro passo para que deixem de comandar o semestre.

Seis anos e uma mensalidade mais barata

O tamanho desse movimento costuma surpreender quem está de fora. Em março de 2025, o Conselho Nacional de Educação Superior do Paraguai, o CONES, contava cerca de 35 mil brasileiros matriculados em medicina no país, perto de 80% de todos os alunos do curso. Um levantamento encomendado pelo setor privado em 2024 mostrou onde eles estão: 21.701 em Alto Paraná, 7.030 em Pedro Juan Caballero e 3.006 na região de Assunção.

Esses números explicam uma sensação que muitos estudantes descrevem nos primeiros meses. A cidade parece cheia de brasileiros e o português está em toda parte. Tudo indica que a adaptação vai ser fácil. Em parte, é. O idioma da rua não assusta, a comida é conhecida, a família está a algumas horas de ônibus.

O que não aparece nessa primeira impressão é o peso do projeto. Medicina é um curso longo em qualquer país. Feito fora, ele vem com camadas extras: aulas e provas em espanhol, um sistema acadêmico com regras próprias, moradia dividida com desconhecidos e, no horizonte, a revalidação do diploma para exercer no Brasil. Cada camada sozinha seria administrável. Juntas, e somadas à cobrança de quem paga a conta, elas formam um tipo de pressão que tem pouco a ver com a dificuldade do conteúdo.

Há ainda a idade. A turma reúne recém-saídos do ensino médio, gente que desistiu de outra carreira aos 30 e pais de família que retomaram um sonho antigo. Cada um chega com uma pergunta diferente. Para o mais novo, é a primeira vez longe de casa. Para o mais velho, é a sensação de que não há mais tempo a perder. Em comum, todos têm a ideia de que a escolha precisa dar certo, e de que dar certo significa não fraquejar.

Ciudad del Este e Pedro Juan Caballero: a vida de estudante na fronteira

As duas cidades que concentram os estudantes têm algo em comum: o Brasil está do outro lado. Em Ciudad del Este, Foz do Iguaçu fica depois da ponte. Em Pedro Juan Caballero, Ponta Porã fica do outro lado da avenida. Essa proximidade é ao mesmo tempo um alívio e uma armadilha.

É um alívio porque a família pode visitar, o estudante pode ir para casa num feriado e há sempre um pedaço do Brasil por perto. É uma armadilha porque a distância parece pequena demais para justificar o que se sente. Fica difícil explicar para a mãe por que a saudade aperta se a casa dela está a poucas horas de estrada. Fica difícil admitir, até para si, que a solidão existe numa cidade onde quase todo mundo fala português.

Ciudad del Este, Hernandarias e Minga Guazú

Em Ciudad del Este, muitos estudantes moram em apartamentos compartilhados perto das faculdades, e parte deles em cidades vizinhas, como Hernandarias e Minga Guazú. A rotina gira em torno do campus, do comércio de fronteira e das idas ocasionais a Foz. É comum ouvir que a cidade é de passagem: ninguém pretende ficar depois de formado, e isso deixa as relações com um ar provisório. Amizades se formam rápido e se desfazem no fim do semestre, quando alguém tranca, muda de faculdade ou volta para o Brasil.

Pedro Juan Caballero

Em Pedro Juan Caballero, a vida estudantil divide espaço com outra realidade. A cidade convive com a violência ligada ao narcotráfico, e de tempos em tempos as execuções atingem também quem não tem relação com o crime, como o mecânico brasileiro morto num tiroteio em outubro de 2025 enquanto fazia compras. Para o estudante, isso se traduz em hábitos de cautela, medo de sair à noite, mensagens da família pedindo notícias a cada manchete. Viver em alerta cansa. E esse cansaço costuma ser somado, sem que ninguém perceba, ao cansaço das provas.

Quando a prova vira sentença

Toda faculdade de medicina tem provas difíceis. O que muda a experiência é o significado que cada prova ganha. Para muitos estudantes brasileiros no Paraguai, uma reprovação deixa de ser um tropeço acadêmico e passa a ser uma prova de que a família investiu errado, de que o sonho foi um erro, de que não há volta.

Na clínica, esse padrão tem nome. Os pensamentos que surgem de forma automática diante de uma situação, rápidos e convincentes, são chamados na terapia cognitivo-comportamental de pensamentos automáticos. Quando eles assumem a forma do pior cenário possível, falamos em catastrofização. Em vez de “fui mal nessa prova”, o pensamento que aparece é “vou reprovar no ano, vou ter que voltar, todo mundo vai saber que eu não consegui”.

O pensamento que chega antes da nota

O curioso é que esse pensamento costuma aparecer antes do resultado. Ele chega na véspera, na fila da sala, no momento em que a prova é entregue. E produz o que se espera de uma ameaça: coração acelerado, mão fria, dificuldade de lembrar o que foi estudado. A ansiedade, que deveria ajudar a focar, passa a atrapalhar o desempenho que ela tenta proteger.

Esse ciclo se alimenta sozinho. A ansiedade prejudica a prova, a nota mais baixa confirma o medo, e o medo cresce para a próxima avaliação. Em pouco tempo, o estudante já não sente ansiedade só na semana de provas. Ela aparece ao abrir o livro, ao ver o calendário, ao receber uma mensagem do grupo da turma.

Sono, café e a madrugada antes da prova

O corpo entra na conta. Madrugadas de estudo, café para ficar acordado, remédio para dormir sem orientação médica, cochilos no meio da tarde. Em algumas semanas, o sono se desorganiza e a capacidade de concentração cai. O estudante interpreta a queda como falta de esforço e responde estudando mais horas, com menos sono. É um caminho que costuma terminar em exaustão.

Um estudo feito em 2021 com alunos de ciências médicas da Universidad del Pacífico, em Pedro Juan Caballero, usou uma escala padronizada para medir depressão, ansiedade e estresse. Os autores relatam depressão em 14,4% dos alunos e algum nível de estresse em 72%. O artigo não informa a nacionalidade dos participantes, então não dá para dizer quantos eram brasileiros. Mas o retrato do ambiente é claro o bastante para levar o assunto a sério.

A dívida que não aparece no boleto

Há uma conta que nenhum boleto mostra: a do sacrifício da família. Pais que venderam o carro, avós que ajudam com o aluguel, irmãos que adiaram os próprios planos. Para quem estuda, isso vira uma espécie de dívida emocional. Cada gasto precisa ser justificado, cada fim de semana de descanso parece um desperdício, cada dificuldade precisa ser escondida para não preocupar quem está pagando.

Essa dívida tem um efeito previsível. Ela torna difícil pedir ajuda. O estudante que está mal não conta para a família porque não quer que o investimento pareça perdido. Não conta para os colegas porque todos parecem estar no mesmo barco e dando conta. Não procura atendimento porque acha que terapia é mais um gasto que ele não tem direito de fazer.

Quando a ligação para casa vira prestação de contas

Em muitas famílias, a ligação semanal vira um relatório: notas, gastos, previsão de formatura. O estudante aprende a responder “está tudo bem” e desliga com um aperto. Nomear esse padrão não é acusar os pais. Na maioria das vezes, a pergunta vem do cuidado e do medo de quem está longe. O trabalho terapêutico ajuda o estudante a separar o amor da família da cobrança que ele mesmo passou a fazer, e a encontrar um jeito de contar como está sem transformar cada conversa em exame.

Também aparece a culpa por pensar em desistir. Muitos estudantes passam meses ruminando a mesma pergunta, se devem continuar, trocar de curso ou voltar, sem conseguir pensar nela com calma. A culpa embaralha a decisão. Na terapia, a pergunta pode ser examinada com mais clareza, separando o que é cansaço de semestre do que é, de fato, um desejo de mudar de caminho.

Solidão no meio de tanta gente que fala português

Parece contraditório sentir solidão numa cidade cheia de brasileiros. Mas a solidão raramente depende do número de pessoas por perto. Ela depende de ter com quem falar sobre o que realmente importa. E, num ambiente de competição acadêmica, essa conversa é rara.

Os colegas são também concorrentes. Mostrar fragilidade pode parecer arriscado. As conversas giram em torno de matéria, de professor, de prova, e quase nunca chegam ao que cada um está sentindo. O resultado é uma turma inteira de gente que se sente sozinha ao mesmo tempo, achando que é a única.

Há também o isolamento de quem não se encaixa no ritmo da turma. O estudante mais velho, que deixou família no Brasil para estudar. A estudante que não sai à noite. O aluno que divide apartamento com quem mal conhece e passa o domingo sozinho. Para esses perfis, os fins de semana costumam ser os momentos mais difíceis, quando a rotina de aulas some e sobra o silêncio.

A solidão prolongada tem efeitos conhecidos no humor, no sono e na motivação. Quando ela se soma à pressão das provas, é comum que o estudante perca o interesse por coisas de que gostava, se isole ainda mais e passe a estudar com menos rendimento. Reconhecer esse movimento cedo faz diferença no rumo do semestre.

Psicólogo para estudante de medicina em Ciudad del Este e Pedro Juan Caballero

Procurar atendimento nas duas cidades tem obstáculos práticos. Na rede pública paraguaia, o atendimento é em espanhol, e o país tem poucos especialistas em saúde mental: em dezembro de 2023, a ministra da Saúde falou em 150 psiquiatras no país, quando seriam necessários 700. Atravessar para Foz do Iguaçu ou Ponta Porã é possível, mas exige tempo que a rotina de aulas raramente deixa, e encaixar uma consulta semanal entre ponte, fila e horário de prova é difícil de sustentar.

Há ainda o receio de encontrar, no consultório local, alguém da mesma faculdade ou da mesma rede de colegas. Em comunidades pequenas, sigilo é uma preocupação legítima, e muitos estudantes adiam o primeiro passo por causa dela.

O que muda nas primeiras semanas de terapia

A terapia cognitivo-comportamental é um dos tratamentos com mais evidência para ansiedade, e o trabalho com estudantes costuma seguir uma ordem. Primeiro vem a organização: entender o ciclo entre pensamento, ansiedade e desempenho, e montar uma rotina de estudo e sono que caiba no corpo. Depois, o trabalho com os pensamentos automáticos que transformam cada prova em sentença, examinando as evidências contra e a favor deles. Por último, o espaço para as perguntas maiores, como a relação com a família e o desejo de continuar ou não no curso. O prazo varia de caso a caso, o método é combinado desde o início e o estudante sabe o que está sendo trabalhado em cada fase.

Quando a ansiedade ocupa boa parte do dia e não depende só da semana de provas, vale conhecer como a terapia trabalha o transtorno de ansiedade generalizada, com critérios que ajudam a diferenciar uma fase difícil de um quadro que pede acompanhamento.

Terapia online em português no ritmo do semestre

A terapia online resolve parte desses obstáculos. O Paraguai adotou em 2024 o horário UTC-3 durante o ano inteiro, o mesmo de Brasília, então a sessão acontece no mesmo horário para o estudante e para a psicóloga. Basta uma conexão estável e um lugar com privacidade, o que num apartamento dividido pode significar o quarto com a porta fechada ou um horário em que os colegas estão na aula.

As sessões podem ser marcadas em volta de aulas, provas e plantões, e o acompanhamento segue mesmo nas férias, quando o estudante volta para casa no Brasil. A conversa acontece em português, na língua em que o estudante pensa sobre a própria vida, mesmo que ele estude em espanhol o dia inteiro.

Se você reconhece parte do que foi descrito aqui, saiba que se trata de uma reação compreensível a um projeto grande, feito longe de casa, e que ela não diz nada sobre a sua capacidade. Uma conversa de avaliação pode ajudar a entender o que está acontecendo e se a terapia faz sentido agora.

A Cognicom Global é um serviço particular de psicoterapia online. As sessões são sigilosas e não substituem atendimento de emergência. Se você está em crise ou pensando em se machucar, no Paraguai ligue para a Linha 155 de Saúde Mental, do Ministério da Saúde, gratuita e disponível 24 horas. No Brasil, o CVV atende pelo 188.

Outros temas sobre a experiência brasileira no Paraguai: a mudança para o Paraguai atrás do imposto menor. Para informações sobre atendimento psicológico online, acesse a página terapia para brasileiros no Paraguai.

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