Brasileiros no Exterior

Mudei para o Paraguai pelo imposto de 10%. A conta que não fechava era outra

PKPaula Karam·25 de outubro de 2026·11 min de leitura

Em que momento uma mudança de país deixa de ser um plano e vira uma rotina?

Para muitos brasileiros que chegaram ao Paraguai nos últimos anos, esse momento costuma vir junto com uma surpresa. A planilha estava certa. O imposto é menor, o aluguel cabe no orçamento, a residência saiu. E mesmo assim, alguns meses depois da mudança, algo não fecha. O sono piora, a irritação aumenta, o casal briga mais, e a pergunta que ninguém queria fazer começa a aparecer:

“Será que eu fiz besteira?”

“Eu larguei tudo. Agora não posso admitir que não está bom.”

“Lá em casa todo mundo acha que eu estou vivendo um sonho.”

Essas frases aparecem em mudanças que deram errado e também nas que estão dando certo. Fazem parte do que uma mudança de país mexe por dentro. Este texto é sobre a parte da conta que a planilha não calcula.

O que trouxe tanta gente em tão pouco tempo

O movimento é recente e rápido. Segundo dados da Direção Nacional de Migrações citados pela BBC, os pedidos de residência de brasileiros no Paraguai passaram de 10.039 em 2020 para 23.526 em 2025. Só em 2025, o país concedeu 40.600 residências, 58% delas a brasileiros. No primeiro trimestre de 2026, foram cerca de 9.200 novas autorizações para brasileiros.

O perfil também mudou. O diretor de imigração de Alto Paraná contou à BBC que, até dois anos atrás, cerca de 80% dos pedidos vinham de estudantes de medicina. Hoje chegam mais empresários, aposentados e pequenos comerciantes, vindos de várias regiões do Brasil.

O motivo mais citado é o imposto. No Paraguai, o imposto sobre consumo, o de renda pessoal e o de renda das empresas têm alíquota de 10%. A mesma reportagem compara a carga tributária paraguaia, perto de 14,5% do PIB, com cerca de 32% no Brasil. Somam-se o custo de vida, a residência mais acessível e a proximidade: o Paraguai fica a poucas horas de carro de boa parte do Sul e do Centro-Oeste, e usa o mesmo horário de Brasília.

São razões concretas e legítimas. Quem decidiu se mudar fez contas reais. O problema aparece quando essas contas viram a única medida de sucesso da mudança.

A promessa que chegou pelo celular

Boa parte de quem chegou nessa leva se informou pelas redes. Vídeos sobre como abrir empresa, quanto custa o aluguel em Assunção, como tirar a cédula paraguaia. Esse material ajuda, mas tem um viés compreensível: quem produz conteúdo sobre a mudança costuma mostrar o lado que funciona, e parte dessas pessoas vende consultoria para quem quer vir.

Uma consultora de migrantes ouvida pela BBC em Ciudad del Este resumiu o risco: muita gente estaria vendendo a ideia de que o Paraguai é maravilhoso para benefício próprio. Na mesma reportagem, um jovem de 22 anos, três meses depois de chegar, já planejava voltar. Disse que as pessoas tinham colocado uma certa magia no país pela internet e que preferia o Brasil.

A psicologia tem um nome para o efeito de ver só um lado da história: viés de confirmação. Quem está insatisfeito no Brasil tende a procurar e guardar as informações que confirmam que sair é a solução. Não há nada de errado nisso. É assim que a mente humana funciona sob pressão. Mas significa que muita gente chega com uma imagem incompleta, e a diferença entre a imagem e a realidade precisa ser processada em algum lugar.

Para parte dos recém-chegados, a decisão de sair também carrega cansaço com o Brasil: insegurança, custo de vida, desânimo com o rumo do país. Na clínica, observo que, quando a mudança nasce mais da vontade de sair do que da vontade de chegar, o novo lugar recebe a tarefa de compensar tudo o que pesava no anterior. Nenhum país dá conta dessa tarefa. Reconhecer qual foi o motor da decisão ajuda a entender por que certas dificuldades doem tanto.

Essa diferença aparece de um jeito específico. Muitas vezes, a decepção maior é consigo, por ter acreditado. E essa vergonha costuma ser mais difícil de falar do que qualquer problema prático.

Assunção, Ciudad del Este e a primeira fila em Migrações

A primeira experiência concreta de muitos recém-chegados é uma fila. A BBC descreveu centenas de pessoas esperando um dia inteiro para atendimento em Ciudad del Este, a ponto de o governo organizar mutirões móveis de documentação. Em Assunção, Encarnación e nas cidades da região metropolitana da capital, como Luque e San Lorenzo, a rotina burocrática se repete em cartórios, bancos e escolas.

Nada disso é exclusivo do Paraguai. Qualquer mudança de país começa com papelada. O que pesa é a combinação com outro fator: a maioria das autorizações concedidas é provisória. Em 2025, foram 29.976 residências temporárias e 10.624 permanentes. Viver com um documento que precisa ser renovado mantém uma parte da cabeça ocupada com a dúvida sobre o futuro.

Documento temporário, vida provisória

Quem vive com residência temporária costuma adiar decisões. Compra de imóvel, matrícula longa dos filhos, abertura de uma segunda empresa, um relacionamento mais sério. Tudo fica para depois da renovação. A vida entra num modo de espera que, com o tempo, cansa tanto quanto a própria burocracia.

Esse estado tem relação com o que a terapia cognitivo-comportamental chama de intolerância à incerteza: a dificuldade de seguir em frente quando não se sabe como algo vai terminar. A pessoa passa a checar o processo, a reler mensagens, a procurar informação em grupos, e cada nova versão contraditória aumenta a ansiedade em vez de diminuí-la.

Ciudad del Este e Presidente Franco: chegar pela fronteira

Para quem entra pelo Paraná, Ciudad del Este e Presidente Franco costumam ser a primeira parada. A proximidade com Foz do Iguaçu facilita a transição: dá para resolver coisas dos dois lados, manter médico ou banco no Brasil, ver a família com frequência. Mas essa vida na fronteira também adia a adaptação. A pessoa mora no Paraguai e vive, em boa parte, no Brasil, e demora a construir laços do lado onde de fato está.

Quando o arrependimento não pode ser dito

Há uma pressão silenciosa sobre quem se mudou por escolha própria, gastou economias e anunciou a decisão para a família e os amigos. Admitir que a mudança está difícil parece admitir que errou. E admitir que errou, para muita gente, parece insuportável.

O resultado é uma espécie de dupla vida. Nas redes e nas conversas com o Brasil, tudo está ótimo. Em casa, o casal discute sobre dinheiro, sobre a escola das crianças, sobre quem teve a ideia. A distância entre a história contada e a vivida cresce, e mantê-la exige energia.

Ficar porque já se gastou demais

Existe um raciocínio comum nessas horas: já investi tanto que não posso voltar. Em economia, isso é chamado de custo afundado. O que já foi gasto não volta em nenhum dos cenários, mas continua pesando na decisão como se voltasse. Na prática, o medo de desperdiçar o que já foi feito passa a decidir pela pessoa, antes de qualquer avaliação sobre o que é melhor daqui para a frente.

A terapia não decide por ninguém se é hora de ficar ou de voltar. O que ela faz é separar as perguntas. Uma é sobre o passado: valeu a pena? Outra é sobre o futuro: o que faz sentido daqui para a frente? Misturar as duas costuma paralisar.

O casal em que só um queria vir

Em muitos casais, a mudança foi ideia de um e concordância do outro. Enquanto tudo vai bem, essa diferença fica escondida. Quando aparecem as dificuldades, ela volta como cobrança: quem quis vir passa a carregar sozinho a responsabilidade por cada problema, e quem aceitou vir sente que não pode reclamar sem parecer que está acusando. Nomear essa assimetria ajuda o casal a conversar sobre o que está acontecendo agora, e não sobre quem tem culpa.

A rotina em outra língua

O espanhol parece próximo do português, e no começo isso ajuda. Com o tempo, a língua mostra os limites. Reunião com contador, consulta médica, reunião na escola das crianças, contrato de aluguel. Entender quase tudo deixa lacunas, e cada pequeno mal-entendido deixa um resíduo de cansaço.

Para quem veio abrir empresa, o primeiro ano costuma ser de aprendizado caro. Fornecedores novos, regras trabalhistas diferentes, clientes que ainda não conhecem a marca. A expectativa de que o imposto menor compensaria tudo esbarra no tempo que um negócio leva para se firmar em qualquer lugar. Enquanto isso, as economias trazidas do Brasil diminuem, e a preocupação com dinheiro cresce na mesma proporção.

Há também a perda de reconhecimento. Profissionais conhecidos na cidade de origem chegam sem rede, sem clientes e sem a reputação construída em anos. Recomeçar aos 45 ou aos 60 tem um custo emocional que raramente entra no planejamento. A pessoa sabe o que vale, mas ninguém ao redor sabe ainda, e essa invisibilidade pesa.

Os filhos sentem de outro jeito. Crianças costumam aprender a língua mais rápido que os pais, e às vezes passam a traduzir para a família. Adolescentes perdem amigos, rotina e referências de uma vez, numa idade em que o grupo é tudo. É comum que o adolescente se feche e que os pais interpretem o fechamento como birra, quando ele pode estar atravessando um luto pela vida que deixou.

Os aposentados que vieram em busca de tranquilidade enfrentam outro tipo de distância. A casa é mais barata, o clima agrada, mas filhos e netos ficaram no Brasil. Os primeiros meses lembram férias. Depois, a rotina sem trabalho e sem rede de amigos pode ficar vazia, e a solidão chega aos poucos.

Há ainda a questão da saúde. O sistema paraguaio funciona em espanhol, e o país tem poucos especialistas em saúde mental: em dezembro de 2023, a ministra da Saúde falou em 150 psiquiatras para uma necessidade de 700. Quem trabalha com carteira tem acesso ao IPS, a previdência paraguaia, mas segurados relatam espera longa por psicólogo e psiquiatra.

Psicólogo para brasileiros recém-chegados em Assunção e Ciudad del Este

Muitos recém-chegados só procuram ajuda quando os sintomas já atrapalham o trabalho ou a vida familiar. Insônia que dura semanas, irritação constante, vontade de ficar em casa, preocupação que não desliga. Nada disso define um diagnóstico à distância, e cada caso precisa de avaliação. Mas é um sinal de que a adaptação está pedindo mais do que a pessoa consegue dar sozinha.

Um critério que ajuda é olhar a linha do tempo. Estranhamento, saudade e cansaço nos primeiros meses fazem parte de qualquer mudança. Quando, em vez de diminuir, esses sentimentos crescem com o tempo, ou quando começam a atrapalhar decisões importantes, vale conversar com um profissional.

Como a terapia trabalha a adaptação

A terapia cognitivo-comportamental costuma organizar o trabalho em etapas. Primeiro, entender o que está acontecendo: quais situações disparam o mal-estar, que pensamentos aparecem, como o corpo reage. Depois, trabalhar os pensamentos que mais pesam, como a cobrança por ter acertado na decisão e a comparação com a vida dos outros nas redes. Em seguida, reconstruir a rotina com atividades que tragam prazer e contato com pessoas, já que o isolamento costuma alimentar o resto. A decisão de ficar ou voltar, quando aparece, é examinada com calma e a partir dos valores de cada um, sem pressa e sem empurrão para um lado.

Quando o mal-estar tem relação direta com a mudança e começou depois dela, vale conhecer como a terapia trabalha os transtornos de adaptação, um quadro descrito justamente para reações intensas a grandes mudanças de vida.

Terapia online em português sem diferença de fuso

Desde 2024, o Paraguai usa o horário UTC-3 durante o ano inteiro, o mesmo de Brasília. Para quem faz terapia online com uma psicóloga no Brasil, isso significa marcar a sessão sem conta de fuso e sem mudança de horário de verão. Basta uma conexão estável e um lugar reservado em casa ou no escritório.

A sessão acontece em português, a língua em que você pensa sobre as decisões que tomou e sobre a vida que deixou. Para quem passa o dia lidando com documentos, fornecedores e escola em espanhol, ter um espaço na própria língua costuma fazer diferença. O acompanhamento continua se você mudar de cidade no Paraguai ou decidir voltar ao Brasil.

Se a mudança está mais pesada do que você esperava, você está atravessando uma das transições mais exigentes da vida adulta, e isso vale tanto para as boas decisões quanto para as ruins. Uma conversa de avaliação pode ajudar a entender o que está acontecendo e o que fazer com isso.

A Cognicom Global é um serviço particular de psicoterapia online. As sessões são sigilosas e não substituem atendimento de emergência. Se você está em crise ou pensando em se machucar, no Paraguai ligue para a Linha 155 de Saúde Mental, do Ministério da Saúde, gratuita e disponível 24 horas. No Brasil, o CVV atende pelo 188.

Outros temas sobre a experiência brasileira no Paraguai: a vida de quem estuda medicina longe de casa. Para informações sobre atendimento psicológico online, acesse a página terapia para brasileiros no Paraguai.

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