Brasileiros no Exterior

Moro num dos países mais ricos do mundo e me sinto mais vazia do que nunca

PKPaula Karam·10 de julho de 2026·11 min de leitura

Há uma versão dessa história que todo mundo de fora ouve e reconhece: morar na Suíça é um privilégio. Os números confirmam. A Suíça é consistentemente ranqueada entre os países com mais alta qualidade de vida do mundo: infraestrutura impecável, sistema de saúde que funciona, segurança pública que não exige atenção constante ao redor, salários que colocam a pessoa em outro patamar financeiro em relação ao que ganharia fazendo a mesma coisa no Brasil. Para quem olha de fora, e principalmente para quem olha do Brasil, morar na Suíça resolve o problema.

Há uma versão que quase ninguém de fora ouve: às vezes o privilégio não chega ao lugar onde a pessoa precisava que chegasse. A conta do supermercado está paga. O apartamento está aquecido. O trem chegou no horário. E a pessoa está se sentindo mais vazia do que em qualquer outra fase da vida, incluindo fases que objetivamente foram mais difíceis do ponto de vista material. Essa versão é mais difícil de contar porque ela precisa começar pelo privilégio antes de poder falar sobre o problema, e quem está do outro lado frequentemente para de ouvir depois do privilégio.

Em Genebra, essa experiência tem uma forma específica. Genebra é uma das cidades com custo de vida mais alto do mundo e ao mesmo tempo uma das cidades com maior concentração de profissionais bem pagos trabalhando em organismos internacionais ou em empresas que justificam esse custo. Quem está em Genebra por esse tipo de oportunidade está, na maioria dos casos, vivendo bem no sentido material. O apartamento é caro mas está sendo pago. O plano de saúde está ativo. A carreira está avançando. E alguma coisa que é mais difícil de nomear não está indo bem, e esse contraste é exatamente o que torna a experiência mais pesada do que seria se a vida simplesmente estivesse difícil em todas as dimensões ao mesmo tempo.

Em Zurique, o mesmo padrão aparece numa cidade diferente. Zurique tem a reputação de ser uma das cidades mais eficientes e mais bem organizadas do mundo, e ela entrega essa reputação: tudo funciona, tudo é limpo, tudo é previsível. Para quem está em Zurique e está se sentindo vazia por dentro, o contraste entre a eficiência do ambiente e o estado interno é uma das fontes específicas de desconforto. Quando tudo ao redor está funcionando e você não está funcionando da forma que esperava, fica mais fácil concluir que o problema é você, não o contexto. Essa atribuição interna é errada mas é a mais disponível quando o contexto externo não oferece nada para culpar.

Essa sensação de vazio num país rico tem uma dinâmica própria que vale a pena nomear antes de falar sobre o que fazer com ela. Não é ingratidão. Não é falta de perspectiva. É o resultado de uma mudança que trouxe muitas coisas boas e que custou outras que não foram antecipadas no cálculo original, e que agora estão fazendo falta de uma forma que as vantagens não cobrem automaticamente.

A riqueza suíça e o que ela resolve e o que ela deixa intacto

A Suíça é rica de uma forma que afeta o cotidiano de maneiras que a pessoa percebe logo nos primeiros meses. O transporte público é confiável ao ponto de dispensar o carro na maioria dos casos. Os parques são mantidos com um nível de cuidado que parece desproporcional até que a pessoa se acostuma. Os hospitais funcionam. A burocracia, embora complexa para quem chega de fora, é previsível: há regras, as regras são cumpridas, e quando a pessoa aprende as regras as coisas funcionam dentro do que foi prometido. Esse conjunto de garantias tem um efeito real sobre o nível de ansiedade cotidiana que o Brasil frequentemente produz, e esse alívio não é pequeno.

O que a riqueza suíça não resolve é o que está abaixo do nível funcional da vida. Ela não produz a sensação de pertencer a algum lugar. Não produz amizades que existiam antes do avião e que continuam a existir com a mesma textura depois de anos longe. Não aproxima a família. Não recria a rede de afeto que foi construída ao longo de toda uma vida num lugar e que não pode ser transportada junto com a mala. A riqueza suíça organiza muito bem o mundo exterior da pessoa, e deixa intacto o mundo interior com todos os seus buracos.

Genebra e o que significa morar numa cidade que o mundo inteiro quer estar

Genebra tem uma posição singular no imaginário global. É a cidade da diplomacia, das organizações internacionais, das sedes corporativas europeias de empresas que o mundo inteiro conhece. Para a brasileira que foi para Genebra por uma dessas oportunidades, a mudança vem frequentemente acompanhada de uma série de reações de quem ficou no Brasil: inveja, admiração, perguntas sobre o salário, comentários sobre o quanto essa pessoa foi longe. Essa percepção de fora cria uma expectativa sobre como a experiência deveria estar sendo vivida por dentro que nem sempre corresponde ao que está acontecendo de verdade.

O que significa morar numa cidade que o mundo inteiro quer estar quando você não está se sentindo bem dentro dela é carregar o peso de parecer que não deveria se sentir assim. A comparação é explicitada nas conversas: “mas você está em Genebra”. A implicação é clara: não há espaço legítimo para não estar bem num lugar desse. Esse apagamento do que está sendo vivido de verdade é uma das formas específicas como o privilégio pode se transformar em isolamento adicional, porque além de estar se sentindo vazia a pessoa passa a não ter espaço para dizer que está se sentindo vazia.

O que o salário alto alcança e o que ele não consegue substituir

O salário suíço alcança bastante. Permite mandar dinheiro para o Brasil sem comprometer o próprio orçamento. Permite viajar para outros países europeus nas férias. Permite ter um apartamento que no Brasil seria fora do alcance. Permite não precisar calcular tudo com a precisão que o salário menor exigia. Esse alívio financeiro é concreto e a pessoa o sente em comparação com as fases da vida em que o dinheiro estava mais apertado. Seria desonesto dizer que o salário alto não muda nada, porque ele muda coisas que eram fonte real de estresse e preocupação cotidiana.

O que o salário alto não consegue substituir é a presença. Não substitui o encontro espontâneo com a amiga que mora perto. Não substitui o domingo na casa da família. Não substitui a sensação de estar num lugar onde a pessoa tem história, onde alguém lembra de quem ela era antes de virar a pessoa que trabalha num organismo internacional em Genebra. O salário compra passagem aérea, que permite visitas, que são boas e dolorosas ao mesmo tempo porque têm data de término. O que ele não compra é a presença contínua das pessoas e dos lugares que compõem o senso de continuidade de uma vida.

Zurique e o que a cidade mais eficiente da Europa não entrega para quem está se sentindo vazia

Zurique entrega eficiência. Entrega beleza: o lago, as montanhas no horizonte, a arquitetura que mistura o histórico e o contemporâneo numa proporção que poucas cidades conseguem. Entrega segurança. Entrega uma infraestrutura de cultura e gastronomia que é sofisticada e diversa. Para quem está em Zurique e está bem, Zurique é de fato uma das melhores cidades do mundo para se estar. Essa qualidade objetiva do lugar é real e não está em questão.

Para quem está em Zurique e está se sentindo vazia, a eficiência e a beleza da cidade criam um contraste específico que é difícil de processar. A cidade funciona. A vida exterior funciona. E internamente algo não está indo bem, e a perfeição do ambiente torna esse não-bem-estar mais difícil de aceitar porque elimina as desculpas externas. Se estivesse num lugar caótico, talvez o caos externo explicasse o estado interno. Em Zurique, onde nada é caótico e tudo está no lugar, o estado interno fica sem explicação que possa ser dada para fora, e sem explicação fica mais difícil de ser levado a sério por quem está do outro lado.

Por que o vazio aumenta quando tudo ao redor está funcionando

Há um mecanismo específico em operação quando a vida exterior está organizada e o interior não corresponde. Quando a vida está difícil em várias dimensões ao mesmo tempo, a atenção e a energia são naturalmente direcionadas para os problemas que podem ser resolvidos. Quando os problemas funcionais estão resolvidos, o que não estava sendo atendido antes fica mais visível, não porque ficou maior, mas porque o que estava na frente saiu do caminho. O vazio que estava lá antes, mas coberto pelas urgências do dia a dia, aparece com mais clareza justamente quando as urgências diminuem e o espaço interior finalmente tem condições de aparecer.

Para a brasileira em Zurique ou em Genebra que está se sentindo vazia, isso significa que a sensação não é necessariamente sinal de que algo piorou: pode ser sinal de que a vida chegou num ponto de estabilidade suficiente para que o que ainda não está bem possa ser percebido. Essa distinção importa porque muda o que precisa ser feito. Não é sobre consertar o que está funcionando. É sobre atender ao que nunca foi atendido e que agora pode, finalmente, ser visto.

O que o psicólogo oferece para quem está vivendo bem e se sentindo mal

O trabalho do psicólogo com brasileiras nessa posição não começa pela gratidão. Não é sobre fazer a pessoa reconhecer o quanto tem, porque ela já sabe o quanto tem e esse conhecimento é parte do problema, não a solução. Começa pelo espaço de fala: um lugar onde o que está sendo vivido pode ser dito sem a obrigação de ser justificado diante do privilégio, sem o peso de parecer ingrata por não estar bem num lugar que todo mundo inveja, sem a pressão de resolver rápido algo que tem raízes mais profundas do que o contexto imediato deixa ver.

O processo terapêutico pode trabalhar com o que a pessoa perdeu ao sair do Brasil que nunca foi contabilizado como perda porque foi coberto pela narrativa do progresso e da oportunidade. Pode trabalhar com o tipo de presença que faz falta, com o que pode ser construído localmente no tempo que essa pessoa tem disponível, e com o impacto de longo prazo de carregar esse vazio sem um espaço para processá-lo. A terapia não vai transformar Genebra em Rio de Janeiro, nem vai fazer a família aparecer mais perto. Mas pode mudar a relação com o que não pode ser mudado, e isso é diferente de simplesmente suportar.

Terapia online para brasileiros na Suíça: atendimento em português

Para quem está em Genebra, Zurique ou em qualquer cantão da Suíça

O atendimento da Cognicom Global é online, em português, disponível para brasileiros em toda a Suíça. Para quem está em Genebra ou Zurique vivendo bem no sentido material e sentindo que alguma coisa essencial está faltando, o formato online significa que o espaço de fala existe sem depender de encontrar terapeuta brasileiro na sua cidade, o que nos dois maiores centros financeiros e diplomáticos da Suíça não é garantido.

Fuso e horários

A Suíça fica entre 4 e 5 horas à frente do Brasil. Sessões no início da manhã suíça (7h às 8h CET) ou no início da noite (18h às 20h CET) encontram janelas compatíveis com o horário comercial brasileiro. A Cognicom trabalha para encaixar dentro do calendário de cada pessoa. O atendimento é particular, cobrado em reais, sem cobertura de seguro saúde suíço.

Avaliação inicial

O ponto de entrada é uma avaliação clínica inicial sem compromisso de continuidade. Para quem mora num dos países mais ricos do mundo e está se sentindo mais vazia do que nunca, essa conversa é o espaço onde isso pode ser dito sem precisar ser justificado primeiro.

Outros artigos da série: Na Suíça as pessoas são educadas com todo mundo e próximas de ninguém e Todo mundo inveja quem mora na Suíça, eu mesma invejava antes de vir. Página principal do cluster: Brasileiros na Suíça.

Outros temas sobre a experiência brasileira na Suíça: Todo mundo inveja quem mora na Suíça — eu mesma invejava antes de vir, Na Suíça as pessoas são educadas com todo mundo e próximas de ninguém e Vim para Zurique com tudo no lugar e descobri que isso não era o suficiente.

Próximo passo

Avaliação clínica sem compromisso.
Online, em português.

A primeira sessão é de avaliação — não de terapia. Ao final você tem uma formulação do seu quadro e um plano proposto. Você decide se continua.

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