Quando alguém decide ir para Zurique, a decisão raramente é por impulso. É uma decisão que vem de pesquisa, de planejamento, de uma avaliação de que o lugar tem o que a vida precisava ter: estabilidade, salário, segurança, perspectiva de futuro. Zurique aparece nas listas das melhores cidades do mundo para se viver com uma regularidade que confirma o que a pessoa já tinha chegado à conclusão por conta própria. A cidade entrega o que está nas listas. O apartamento existe, o contrato existe, o salário cobre o custo de vida com sobra em muitos casos, e a qualidade dos serviços, da infraestrutura e do ambiente urbano é de fato o que as pesquisas descrevem. Tudo está no lugar.
A descoberta de que tudo no lugar não é o suficiente costuma chegar em silêncio. Não é uma crise, não é um evento, não é uma conclusão de que Zurique não funciona. É uma percepção que vai se instalando gradualmente: que a cidade está entregando o que prometia, que a pessoa está indo bem nos parâmetros objetivos, e que mesmo assim há algo que não está sendo atendido por nenhum desses parâmetros. Essa percepção é difícil de nomear porque não tem um problema identificável ao qual apontar. O problema não é Zurique. O problema não é a pessoa. É a distância entre o que a cidade oferece e o que a pessoa precisava que viesse junto com a mudança, e que não veio porque não pode vir do lado de fora de nenhuma cidade do mundo.
Em Basileia, a terceira maior cidade da Suíça e no ponto onde o país toca a Alemanha e a França, um grupo diferente de brasileiros fez uma trajetória parecida com a de quem foi para Zurique. Basileia atrai por conta das empresas farmacêuticas e químicas que têm sede ali, por conta do ambiente cultural comparativamente mais vibrante do que Berna, e por conta de uma escala que parece mais habitável do que Zurique sem ser provinciana. A cidade tem características que a distinguem do restante da Suíça e que foram parte da decisão de ir para lá. O que Basileia não tem de diferente de Zurique é a resposta para a pergunta de por que tudo no lugar ainda não é o suficiente, porque essa pergunta não tem resposta na cidade nem em nenhuma outra. O lugar certo não existe como solução para o que não é uma questão de lugar.
O que tudo no lugar significa quando a pessoa é a peça que não encontrou onde encaixar
Tudo no lugar é uma descrição do ambiente. Descreve os sistemas, os serviços, a infraestrutura, a ordem do espaço urbano. Não descreve o que acontece com a pessoa quando ela está nesse ambiente sem os vínculos, os sistemas de apoio, a rede de relações que tornavam a vida possível antes de vir. Quando o que estava no lugar no Brasil era também a proximidade da família, as amizades de anos, os lugares conhecidos, os pequenos rituais de pertencimento que nem eram percebidos como tal até sumirem, tudo no lugar em Zurique descreve uma realidade muito diferente daquela que o ambiente anterior oferecia. O contraste entre os dois sentidos de tudo no lugar é onde a dificuldade mora.
A peça que não encontrou onde encaixar não é uma metáfora depreciativa: é uma descrição de como a integração social em lugares como a Suíça funciona. Não é automática. Não acelera por esforço individual unilateral. Requer tempo, disponibilidade de ambos os lados, e uma tolerância para o período longo em que a pessoa está aqui, está funcionando, está indo bem objetivamente, e ainda assim não se sente parte de nada além do que sua função profissional ou doméstica descreve. Esse período pode durar meses. Em alguns casos, anos. E durante esse período, o fato de que tudo está no lugar no ambiente não alivia o que não está no lugar por dentro da pessoa que está vivendo aquele ambiente todos os dias.
Zurique e a diferença entre uma vida que funciona e uma vida que pertence
A vida que funciona em Zurique é real e tem valor que não deve ser subestimado. O fato de que os sistemas funcionam, de que a qualidade de vida material é alta, de que o ambiente é seguro e previsível é algo que quem vem do Brasil reconhece como ganho imediato e legítimo. Não é ingratidão reconhecer esse ganho e ao mesmo tempo perceber que ele não resolve tudo que importa. É uma percepção precisa do que a vida bem-funcionante oferece e do que ela não oferece por conta própria.
A vida que pertence é outra coisa. É a vida em que a pessoa é conhecida por quem ela é além da sua função. Em que os vizinhos sabem o nome não por educação, mas porque há relação de fato. Em que há lugares na cidade onde ir não é ir para um serviço ou uma função, mas para estar num lugar onde algo de si está presente. Isso leva tempo para se construir em qualquer lugar, mas em Zurique leva mais tempo e mais esforço do que o esperado por quem vem de um contexto onde pertencimento tem uma dinâmica diferente. E enquanto não está construído, o que existe é uma vida que funciona sem ser ainda uma vida que pertence a quem está vivendo ela.
Por que o suficiente da cidade não é o suficiente da pessoa
O que fica de fora quando os parâmetros objetivos estão todos atendidos
Os parâmetros objetivos de qualidade de vida que as pesquisas usam para classificar Zurique como uma das melhores cidades do mundo são legítimos dentro do que medem. Medem acesso a serviços, segurança, infraestrutura, saúde, educação, custo de vida relativo à renda disponível. O que não medem é o que não é mensurável pelos instrumentos que essas pesquisas usam: a facilidade de pertencer, a qualidade dos vínculos disponíveis, a correspondência entre o que a cultura local oferece como modo de vida e o que a pessoa precisa para se sentir em casa de verdade.
O suficiente da cidade é o suficiente para os parâmetros da cidade. O suficiente da pessoa inclui coisas que não aparecem nas listas: ser reconhecida pelo que é, ter relações que vão além do funcional, sentir que o lugar onde se está tem alguma coisa que ressoa com quem se é. Quando esse suficiente mais amplo não está atendido, a vida em Zurique pode ser objetivamente boa e subjetivamente custosa ao mesmo tempo. As duas coisas são verdadeiras simultaneamente. Reconhecer as duas é o ponto de partida para trabalhar com o que está difícil sem precisar negar o que está bem, nem fingir que está bem o que não está.
Basileia e o que a cidade fronteiriça tem e o que continua faltando
Basileia tem uma característica que a distingue de outras cidades suíças: fica numa encruzilhada. Da Basileia se entra na Alemanha ou na França em minutos de trem. Isso dá à cidade uma permeabilidade cultural que as outras cidades suíças não têm da mesma forma. O ambiente artístico e cultural de Basileia é reconhecidamente mais vibrante do que o de Berna, e a presença de uma indústria farmacêutica grande traz um perfil de expatriados internacionais que cria oportunidades de convivência mais variadas do que em cidades mais homogêneas do país.
Mesmo assim, Basileia não resolve o que Zurique não resolve. A brasileira que foi para Basileia esperando que a diferença de cidade fizesse diferença no que estava custando vai encontrar a mesma questão em endereço novo. A permeabilidade cultural da cidade e a variedade de expatriados não substituem a pergunta de se sentir parte de algo que vai além da função profissional. A questão não muda com a cidade porque a questão não é sobre a cidade. É sobre o que acontece com a pessoa quando o contexto ideal entrega o que prometia e a vida ainda assim cobra um preço que os parâmetros objetivos não registram.
O que acontece com o projeto de vida quando o contexto ideal nao produz o esperado
A pessoa que foi para Zurique com o projeto de construir algo, carreira, poupança, estabilidade, perspectiva de futuro, geralmente está construindo esse algo. O projeto funciona no nível em que é objetivo e mensurável. O que às vezes não funciona é a dimensão do projeto que envolve como a pessoa se sente ao longo desse processo de construção. O projeto objetivo pode estar avançando enquanto a pessoa vai se sentindo progressivamente mais distante de quem era antes de vir, ou mais incerta sobre o que quer que seja que não está incluído no projeto.
Essa dissociação entre o projeto que avança e o estado interno que piora não é incomum e não é sinal de que a decisão de ir para a Suíça foi errada. É sinal de que o projeto de vida tem dimensões que o contexto suíço, por mais bem organizado que seja, não endereça sozinho. As dimensões que ficam de fora do projeto objetivo precisam de atenção que não vem da cidade, não vem do salário, e não vem do fato de que os trens chegam na hora certa. Reconhecer isso não é fraqueza: é o começo de saber o que precisa de atenção diferente da que o contexto oferece.
O que o psicólogo oferece para quem descobriu que tudo no lugar nao era o suficiente
O trabalho do psicólogo com brasileiras em Zurique ou Basileia que chegaram na descoberta de que o contexto não era o suficiente começa pelo reconhecimento de que essa descoberta não é falha de perspectiva nem sinal de que a decisão foi errada. É o encontro com o limite do que qualquer mudança de contexto pode fazer sozinha, e com o começo da pergunta de o que mais precisa de atenção além do que o contexto resolve por si mesmo. Nomear esse limite com precisão é o que permite trabalhar com ele sem transformá-lo em culpa e sem buscar uma nova mudança de lugar como solução para o que não é uma questão de lugar.
A partir desse ponto, o processo pode trabalhar com o que está custando que ainda não tem nome claro, com o que foi deixado para trás na mudança que não foi devidamente processado, e com o que a pessoa quer que venha a seguir sem que isso precise esperar por uma circunstância externa diferente. Esse é um trabalho que pode acontecer enquanto a vida em Zurique continua, sem que seja necessário resolver a situação migratória como pré-condição para começar a prestar atenção no que está acontecendo por dentro.
Terapia online para brasileiros em Zurique: atendimento em português
Para quem está em Zurique, Basileia ou em qualquer cantão da Suíça
O atendimento da Cognicom Global é online, em português, disponível para brasileiros em toda a Suíça. Para quem está em Zurique ou Basileia e descobriu que tudo no lugar não era o suficiente, o formato online significa que o acesso ao suporte não depende de encontrar um terapeuta de língua portuguesa disponível na cidade, o que é difícil, mas de ter conexão com internet e um horário compatível com os fusos dos dois países.
Fuso e horários
A Suíça fica entre 4 e 5 horas à frente do Brasil, dependendo do horário de verão brasileiro. Sessões no início da manhã suíça (7h às 8h CET) ou no início da noite (18h às 20h CET) costumam encontrar horários compatíveis com o Brasil. A Cognicom trabalha para encaixar o atendimento dentro do calendário de cada pessoa. O atendimento é particular, cobrado em reais, sem aceitar seguro saúde suíço.
Avaliação inicial
O ponto de entrada é uma avaliação clínica inicial sem compromisso de continuidade. Para quem foi para Zurique com tudo no lugar e descobriu que isso não era o suficiente, essa conversa inicial é o espaço para começar a nomear o que ainda falta e o que precisa de atenção além do que a cidade resolve.
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